A existência
“Inexprimível e sem nome é o que faz o tormento e a delícia da minha alma, e que é, também, a fome das minhas entranhas” (Nietzsche, ZARATUSTRA, Das alegrias e das paixões).
O ser humano tem de comum com os demais seres o fato de que ele simplesmente é. A planta é, o animal é, a pedra é. Nós também somos.
Portanto, bastaria ser efetivamente para existir!
“A existência corresponde à realidade singular, ao homem singular; ela permanece fora do conceito que, de qualquer forma, não coincide com ela. Para um animal singular, uma planta singular, um homem singular, a existência (ser ou não ser) é algo decisivo” (S. Kierkegaard).
Mas há uma grande diferença no modo de ser!
1.O ser-humano está no tormento inexprimível e sem nome que o impele à procura e à pesquisa bem ou mal sucedida. É caminho que vai além da situação! É transcendência.
Distancia-se assim dos demais seres costurados ao determinismo da natureza. Essa facticidade, essa fome de nossas entranhas, que nos lança para sonhos e projetos devida, dá origem ao fenômeno humano que chamamos de existência. É nessa palavra ‘existência’ que compreendemos maximamente nosso ser e nos alongamos na compreensão dos demais.
“Determinamos a idéia de existência como poder-ser que compreende, e onde está em jogo seu próprio ser” (Heidegger, M. Ser e tempo, § 45).
“Só o ser-humano, até onde alcança nossa experiência, foi introduzido no destino da existência” (Heidegger, M. Sobre o Humanismo. Rio, 1967, p. 41).
2. A existência nos leva a compreender com clareza que o ser-humano não é um dado feito, mas um encargo, uma tarefa de ser! um risco de ganhar-se ou de perder-se.
“Justamente porque o humano é essencialmente possibilidade, ele pode no seu ser ou escolher-se e conquistar-se, ou então perder-se, ou seja, não conquistar-se, ou conquistar-se só aparentemente” (Heidegger, M. Ser e tempo, § 9).
“Sendo sempre eu, o poder-ser (humano) é livre para a autenticidade e a inautenticidade ou ainda para um modo de indiferença” (Heidegger, M. Ser e tempo, § 45).
3. É sobretudo no ato de pensar que o humano sinaliza o projeto de seu ter-que-ser (avoir à être, zu sein). Por isso, G.B. Vico (1668-1744) observava que Descartes, em vez de “eu penso, logo sou”, deveria ter dito “eu penso, logo existo”. Na atividade de pensar em si mesma, sem recursos externos, descortinamos nossas possibilidades de ser e consumamos nosso relacionamento com a realidade.
“Nossa relação com a realidade se consuma no pensar” (Wittgenstein, L. Textos fundamentales. Madri ,1987, p. 68).
4. A existência nos leva a compreender que o humano é ser-em-situação, vinculado ao mundo e aos outros. Para realizar o próprio ser, o humano se lança no mundo, submetendo-se às condições do mundo. Precisa aninhar-se na situação mundana como os peixes se aninham nas águas e os animais selvagens nos mistérios da floresta. Precisa morar bem no mundo como as árvores na terra. Um morar enraizado.
“O mérito da filosofia consiste justamente em procurar na noção de existência o meio de pensar a condição humana. A existência é o movimento pelo qual o homem está no mundo, comprometendo-se numa situação física e social que se torna sua visão do mundo” (Merleau Ponty, M. Sens et Non Sens, Paris, 1948, p. 143).
Aqui no mundo, por mais amassado que se sinta, o ser humano se alonga no seu poder-ser mais próprio.
“O termo ‘ex-sistir’ torna-se assim sinônimo de ser-no-mundo, não constituindo, no fundo, senão outro nome para exprimir o que Husserl entende pela intencionalidade da consciência ao defini-la como WeltfahrendesLeben (vida que experimenta o mundo)” (Dondeyne, A. Foi Chrétienne et Pensée Contemporaine, Louvain-Paris 1954, p. 18).
5. A existência não se esgota na compreensão de viver necessariamente na circunstância ‘mundo’, nem na compreensão de ‘risco de ganhar-se e de perder-se’. Ela ainda se compreende como ser-para-a-morte.
Que acontece nessa compreensão?
A existência se abre para outro porvir, transcendente a si e ao mundo. Ela se dá conta que está no ser-que-espera.
A resposta autêntica do ser-para-a-morte é a espera.
Não da mesma forma como se espera um ônibus na rodoviária, mas como o inesperado, isto é, como o impossível ao nosso poder.
Na medida em que pressentimos o inesperado, o ‘alcançado do mundo’, a magnificência de suas realizações, jamais terão força de nos ‘entorpecer, paralisando no ‘aqui’ nosso destino.
6. O chamamento para a morte não nos leva a uma ‘discussão’ teórica, mas ao apelo mais próprio de nosso poder-ser, diferente do mundo. É um arrebatamento acima do mundo, é espera do inesperado.
Poderia o inesperado ser ‘Deus’?
“Somente a partir da verdade do Ser pode-se pensar a essência do sagrado. Somente a partir da essência do sagrado pode-se pensar a essência da divindade. Somente na luz da essência da divindade pode-se pensar e dizer o que a palavra ‘Deus’ pretende significar” (Heidegger, M. Carta Sobre o Humanismo, Rio 1967, p. 81).
7. Nesta perspectiva a existência descobre que ela, como um bosque sagrado, é espera de revelação de um segredo maior. Por conseguinte, na medida em que moramos no nosso ser, moramos também na proximidade de Deus. Dizia Heráclito: ‘o homem, na dimensão de seu ser, retém o ad-vento de Deus’ (éthos antrópo daïmon).
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A angústia
‘Todos estamos de fato na possibilidade, na obrigação e na necessidade de recorrer à vontade e à inteligência para conduzir as emoções; isso prova uma certa primazia do querer e do saber sobre o sentir. Mas esse recurso à inteligência e à vontade não nos deve levar ao erro de negar que estamos primeiro e originariamente no sentimento. A existência-no-mundo é uma grande emoção: é o sentimento de estar atirado numa situação que nos parece desviada de nossa verdade e tremendamente perigosa” (cf. Heidegger, M. Ser e tempo, § 29).
O grão de trigo, ao germinar, sai de seu invólucro e flutua cá fora em trigal ondejante! A rosa, ao florescer, sai da clausura do botão e explode cá fora em pétalas largas e coloridas! O ser-humano, para se realizar, abandona a solidão e se lança para o projeto de existência-no-mundo.
1. Desde o primeiro instante, somos impulso irresistível para o mundo. Não há como retroceder! Estamos no desterro do mundo! Crianças encantadas com o espetáculo e apavoradas!
Quem nos apavora é o sentimento de angústia. Ela nos comprime e nos asfixia, corpo e alma.
A angústia banha nosso ser e nos faz sentir no mais íntimo que não somos um dado firme e estáve. Somos incerteza e risco! Perigo e desamparo!
2. Persegue-nos sempre o sentimento de angústia. Não é um sentimento paralisante que nos fecha e enclausura. Antes o contrário, abre-nos totalmente para o mundo.
“A angústia nos abre primariamente o mundo enquanto mundo” (Heidegger, M.).
No uso da embarcação, o navegante foge do perigo do mar; no uso do abrigo, o viandante foge do perigo da tempestade; no uso da Bíblia, o crente foge do perigo da perdição; no uso do mundo, fugimos do perigo do desamparo de nosso ser.
Se não devêssemos nos proteger; se fôssemos rocha firme e estável; se não precisássemos de socorro.., não nos abriríamos para as tarefas do mundo. Mas, por causa da angústia, todos precisamos de socorro, todos nos atiramos para o projeto de existência-no-mundo. Aqui nos refugiamos. Para cá fugimos. O mundo é uma fuga.
A palavra fuga, em sentido próprio, significa desafogo, busca de liberdade, caminho que se estira sob os pés, travessia. Assim, por ser constante procura de salvação, a existência-humana é caminho que parte em direção ao mundo. Este é seu abrigo, uma fuga sem fim.
3. É no mundo que desafogamos nossa imensa angústia; aqui nos aliviamos de seu peso.
Como se dá o alívio da angústia aqui no mundo?
Depois de um longo périplo, ao pisar o continente, o navegador respira aliviado! Mas é o continente sua pátria mais que o mar?
O mundo é o lugar onde cuidamos de nossa angústia. Transformamos as coisas em utensílios de uso e a natureza toda num imenso abrigo. Gostamos de nos entregar, em devaneios poéticos, ao pôr-do-sol todo colorido lá próximo ao horizonte que nos abraça; gostaríamos de nos atirar no manto estrelado do céu, nos braços de sua proteção... Oh! angústia que nos arranca da apertada prisão de nós mesmos e nos lança no mundo e para o mundo! Mundo das coisas e dos outros: na companhia, no cuidado, na paz, na felicidade do encontro.
Há momentos nesse estar-no-mundo que tudo parece um só!
Junto às pedras, sentimo-nos firmes; junto às árvores, protegidos; junto aos frutos coloridos, colocados ali sobre a mesa do café da manhã, sentimo-nos alimentados, nutridos de vida infinita.
Manuel Bandeira (1886-1968), no detalhe da maçã, canta a existência-no-mundo na companhia reconfortante da maçã que se dá no café matinal.
“Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente
E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel”.
4. Aqui fora, no mundo, porém, a angústia ainda nos acompanha. Nas tarefas do mundo a que nos atirou, ela nos fustiga e nos faz caminho e passagem. Embora nos lançando no mundo, não nos deixa no mundo. A todo instante mostra a insignificância do mundo, a impossibilidade de nos socorrer...
Mas por que a existência-no-mundo não nos aquieta? Por que não somos plantas e animais na paz da natureza?
Nos cuidados do mundo percebemos que não podemos salvar nossa substância de ser para a vida. Assim, o mundo nos mostra mais claramente que somos ser para a morte.
5. A angústia, a percepção nítida que somos ser-para-a-morte, rompe nossa ligação íntima com o mundo e nos faz sentir o quanto somos apátridas e estranhos ao mundo...
Não é necessário que haja um perigo iminente para despertar em nós a angústia. Esta emerge na mais tranqüila situação-mundana. Por isso, embora nos lance constantemente para a existência-no-mundo, a angústia é força de libertação de nossa fuga e queda no mundo. Ela nos impõe a necessidade de voltar: “Retorna a ti... desperta” (Marco Aurélio) para a única possibilidade autêntica... para a estranha substância de ser para a morte. Esta possibilidade se enraíza no íntimo mais íntimo de nós mesmos. A angústia é a compreensão da ambígua identidade de nossa existência-no-mundo, onde nos sentimos ser para a vida e ser para a morte.
IN: BUZZI, Arcângelo R. Filosofia para principiantes – A existência no mundo. 5ª.ed. Petrópolis, Vozes, 1996.151pg.