Rumo à civilização da re-ligação

Leonardo Boff

 

 

Analistas, especialmente vindos da biologia, das ciências da Terra e da cosmologia, nos advertem que o tempo atual se assemelha muito às épocas de grande ruptura no processo da evolução, épocas caracterizadas por extinções em massa. Efetivamente, a humanidade se encontra diante de uma situação inaudita. Deve decidir se quer continuar a viver ou se escolhe sua própria autodestruição.

O risco não vem de alguma ameaça cósmica - o choque de algum meteoro ou asteróide rasante - nem de algum cataclismo natural produzido pela própria Terra - um terremoto sem proporções ou algum deslocamento fenomenal de placas tectônicas. Vem da própria atividade humana. O asteróide ameaçador se chama homo  sapiens demens, surgido na África há poucos milhões de anos.

Pela primeira vez no processo conhecido de hominização, o ser humano se deu os instrumentos de sua própria destruição. Criou-se verdadeiramente um princípio, o de autodestruição, que tem sua contrapartida, o princípio de responsabilidade. De agora em diante a existência da biosfera estará à mercê da decisão humana. Para continuar a viver o ser humano deverá querê-lo. Terá que garantir as condições de sua sobrevida. Tudo depende de sua própria responsabilidade. O risco pode ser fatal e terminal.

Nos últimos três séculos, a humanidade ocidental se organizou mais na insensatez do que na sabedoria. Seu estilo de vida é hoje mundializado. A ele está ligada a destruição de ecossistemas, a ameaça nuclear e a falta de compaixão, relegando milhões e milhões de pessoas à miséria.

Os indicadores da situação mundial são alarmantes. Deixam transparecer pouco tempo para as mudanças necessárias. Estimativas otimistas estabelecem como data-limite o ano 2030. A partir daí a sustentabilidade do sistema-Terra não estará mais garantida.

Agora, porém, mais do que nunca precisamos ter sabedoria. Sabedoria para captar as transformações imprescindíveis. Sabedoria para definir a direção certa. Sabedoria para projetar o sonho que nos guiará. Sabedoria, enfim, para priorizar as ações concertadas que vão traduzir este sonho em realidade.

 

1.   Da insensatez à sabedoria

 

Resumidamente, três são os nós problemáticos que, urgentemente, devem ser desatados: o nó da exaustão dos recursos naturais não renováveis, o nó da suportabilidade da Terra (quanto de agressão ela pode suportar?) e o nó da injustiça social mundial.

Não pretendemos detalhar tais problemas amplamente conhecidos. Apenas queremos compartilhar e reforçar a convicção de muitos, segundo a qual a solução para os referidos problemas não se encontra nos recursos da civilização vigente. Pois o eixo estruturador desta civilização reside na vontade de poder e de dominação. Assujeitar a Terra, espoliar ao máximo seus recursos, conquistar povos e apropriar-se de suas riquezas, buscar a prosperidade mesmo à custa da exploração da força de trabalho e da dilapidação da natureza: eis o sonho maior que mobilizou e continua mobilizando o mundo moderno. Ora, esta vontade de poder e de dominação está levando a humanidade e a Terra a um impasse fatal. Ou mudamos ou pereceremos.

Temos que mudar nossa forma de pensar, de sentir, de avaliar e de agir. Somos urgidos a fazer uma revolução civilizacional. Sob outra inspiração e a partir de outros princípios mais benevolentes para com a Terra e seus filhos e filhas. Por ela os seres humanos poderão salvar-se e salvar também o seu belo e radiante planeta Terra.

Mais ainda. Esposamos a idéia de que os sofrimentos atuais possuem uma significação que transcende a crise civilizacional. Eles se ordenam a algo maior. Revelam o trabalho de parto em que estamos, sinalizando o nascimento de um novo patamar de hominização. Estão surgindo os primeiros rebentos de um novo pacto social entre os povos e de uma nova aliança de paz e de cooperação com a Terra, nossa casa comum.

Recusamo-nos à idéia de que os 4,5 bilhões de anos de formação da Terra tenham servido à sua destruição. As crises e os sofrimentos se ordenam a uma grande aurora. Ninguém poderá detê-la. De uma época de mudança passamos à mudança de época. Estamos deixando para trás um paradigma que plasmou a história nos últimos quinze mil anos.

 

2.   O fim  das revoluções do neolítico

 

Há dez ou doze mil anos atrás o ser humano inaugurava o neolítico. Abandonou as cavernas e se aventurou na conquista do mundo exterior. Transformou-o por sucessivas revoluções que podemos chamar de revoluções do neolítico.

A primeira delas, a mais universal de todas, foi a revolução agrícola. Domesticaram-se animais e plantas, irrigaram-se campos, criaram-se vilas e cidades e garantiu-se a infra-estrutura da subsistência material dos seres humanos. A partir desta época lançaram-se as raízes do patriarcalismo, quer dizer, da dominação do princípio masculino e dos homens sobre as mulheres na organização da vida humana. Em termos tecnológicos foi uma grande libertação. Mas a que custo?

14 mil anos após, fez-se a revolução industrial. Criou-se a máquina que incorporou a si a força física do ser humano. Este não precisa mais fazer grandes esforços, carregar pesos e gastar sua saúde na produção. A máquina o substitui. Manteve-se e até se reforçou o patriarcalismo, pois aumentaram os meios e as formas da dominação sobre as pessoas e a natureza. Não obstante, com relação às carências humanas foi uma considerável libertação. Mas a que custo?

Nos nossos dias, trezentos anos após, fez-se a revolução do conhecimento e da comunicação. Criou-se outro tipo de máquina que incorporou a si a força mental do ser humano: o cálculo, o trabalho intelectual, a invenção através do computador, do robô e da informática. Avançou-se para dentro do coração da matéria, tirando informações das partículas subatômicas e das energias primordiais. Penetrou-se para dentro do mistério da vida, colhendo as informações do código genético e revolucionando o futuro pela biotecnologia e pela co-pilotagem da evolução. É uma libertação tecnológica inimaginável. Mas a que custo?

Importa, entretanto, reconhecer que assistiu-se à emergência do feminino, desmascarando a presença do poder masculino em todos os campos da vida familiar e social, nas expressões da linguagem, na formulação dos saberes e na instituição de ritos e tradições, denunciando o patriarcado como poder opressor da mulher e do próprio homem. Especialmente o ecofeminismo obrigou o masculino e toda a cultura a uma redefinição no sentido de mais equilíbrio e de relações mais inclusivas e participatórias.

Há que se reconhecer: todas estas revoluções nascidas na viragem do neolítico transformaram, sem dúvida, a face da Terra. Encurtaram distâncias e aceleraram o tempo. Trouxeram comodidades para a vida cotidiana, enchendo, por exemplo, nossas casas de eletrodomésticos e de outros instrumentos de comunicação. Trocaram as paisagens. Onde ontem era mar hoje é uma cidade. Onde havia uma montanha, hoje funciona uma fábrica. A própria composição físico-químico-biológica do Planeta é outra. O ser humano acumulou um poder imenso mas perigoso.

Este processo conquistou, em maior ou menor escala, todos os quadrantes da Terra. Penetrou em todas as culturas até as mais recônditas no coração da floresta amazônica ou no interior do Sudeste Asiático. Aí pode faltar comida na mesa, mas não falta um aparelho de rádio ou de televisão que permite aos moradores estar ligados ao mundo e sonhar. Tudo hoje é pensado, projetado e produzido em função da aldeia global planetária em que se está transformando nosso planeta Terra.

Simultaneamente, este processo é responsável pela devastação do sistema-Terra, pela monocultura tecnológica e material, pelo patriarncalismo ainda dominante, pela desumanização e falta de compaixão nas relações sociais. A Terra e os humanos pagaram um preço demasiadamente alto pelo tipo de desenvolvimento que projetaram. Hoje a perpetuidade deste processo pode destruir-nos.

 

3.   O Adão dominador e o Prometeu conquistador

 

Para ultrapassá-lo, importa identificar as causas geradoras. Não basta, porém, narrar a história cronológica, como fizemos rapidamente. Urge denunciar o motor que empurrou esta história ao ponto dramático em que ela chegou nos dias atuais. Que propósito se esconde por detrás de todo este imenso processo técnico-científico-cultural, a um tempo benfazejo e perverso?

Respondemos: esconde-se a figura do Adão bíblico que, consoante o texto sagrado, sente o chamado de dominar a Terra e tudo o que ela contém: as aves do céu e os peixes do mar. Oculta-se a figura mitológica de Prometeu, divindade que roubou o fogo do céu e o entregou aos humanos, fazendo-se assim inspirador do processo civilizatório, assentado sobre o poder-dominação.

A vontade de poder e de dominação é o projeto antropológico em vigor desde o neolítico. Ele ganhou sua expressão clássica no antropocentrismo que marcou toda a trajetória cultural a partir de então. Assujeitar a Terra, aproveitar-se de seus recursos, ignorar a autonomia dos demais seres vivos e inertes, conquistar outros povos e submetê-los para construir a prosperidade: eis o sonho maior que mobilizou desde sempre aquela porção da humanidade, detentora dos meios de poder, de ter e de saber.

O projeto de poder-dominação ganhou sua expressão dura a partir do século XVII. Naquela época começou a ser montada a máquina industrialista. Já se haviam construído as bases filosóficas para tal empresa através de René Descartes (1596-1650). Este ensinava que o ser humano deve ser “o mestre e o dono da natureza”. Ou também através de Francis Bacon (1561-1626), o pai do método científico, que via o laboratório como uma câmara de torturas de inquisidor. Deve-se forçar, coagir, torturar a natureza, escrevia ele, até que ela entregue todos os seus segredos. Foi o autor da expressão: saber é poder. E o poder era entendido como capacidade de dominar, isto é, fazer com que os outros façam aquilo que o mais forte quer.

Com essa postura radicalizou-se o antropocentrismo: a dominação total da natureza pelo ser humano. Reafirmou-se destarte o patriarcalismo, pois o projeto de dominação foi excogitado e implantado pelo homem-macho, marginalizando a mulher e identificando-a com a natureza. Natureza e mulher, no entender desse projeto, devem ser submetidas pelo homem-macho. Em conseqüência, perdeu-se o sentido da unicidade de toda a vida e da diversidade de suas manifestações, a percepção espiritual do universo e o esprit de finesse (espírito de fineza) face ao mistério da vida e do universo. Todas estas características são contribuições que o feminino (a dimensão da anima, no homem e na mulher, mas principalmente na mulher) poderiam ter dado à humanidade. Ao invés disso imperou o esprit de géometrie (o animus, o espírito de cálculo e de controle), expressão máxima do masculino.

Esta base filosófica foi conjugada com a base científica. Galileo Galilei (1564-1642), Copérnico (1473-1543) e Newton (1643-1727) forneceram a nova imagem do mundo fundada na matemática, na física e na astronomia heliocêntrica. O casamento da teoria com a prática originou a cosmologia, chamada moderna.

Esta cosmologia possui as seguintes características: é materialista e mecânica; é linear e determinística; é dualista e reducionista; é atomística e compartimentada. Expliquemos estes termos.

O universo, nesta percepção do mundo (cosmologia), é composto de matéria, essencialmente estática e inerte. Ele funciona como uma máquina que existe desde sempre. As leis são determinísticas e permitem uma descrição matemática exata de todos os fenômenos. A lógica é linear, pois para cada efeito existe a causa correspondente. Toda a complexidade da realidade é reduzida aos seus elementos mais simples.

 É reducionista porque reduz a capacidade de conhecimento dos seres humanos somente ao enfoque científico. Submetendo-a à manipulação técnica, reduz-se a capacidade da natureza de regenerar-se criativamente. Vê todas as realidades, das estrelas ao corpo humano, compostas pelos mesmos elementos básicos (os átomos indivisíveis e inertes), discretos, justapostos, sem qualquer relação uns com os outros, cujos processos são todos mecânicos.

É dualista porque separa matéria e espírito, homem e mulher, religião e vida, economia e política, Deus e mundo. O espírito vem ignorado ou isolado à esfera do privado. O que conta é a matéria, mensurável, matematizável, manipulável e destituída de qualquer irradiação e propósito. E entregue, sem qualquer consideração ética ou espiritual prévia, ao projeto de desenvolvimento material arquitetado pelo ser humano.

Já se disse que os efeitos desta visão reducionista e dividida sobre a mente humana corresponde a uma verdadeira lobotomia: deixou- nos a todos obtusos para as maravilhas da natureza e insensíveis face à reverência que o universo naturalmente provoca. Deixou-nos desencantados. Há coisa pior do que perder a magia, o brilho, a irradiação da vida, das pessoas, das coisas e do universo?

Em termos sociais, a vontade de poder concretizou-se como vontade obsessiva e desmesurada de concentrar poder, de enriquecer, de conquistar novas terras e de subjugar outros povos. Tal propósito constituiu a grande obsessão a partir do século XVI, no alvorecer da modernidade, que se traduziu em colonialismo, em imperialismo e na imposição da monocultura material, cultural e religiosa onde quer que chegassem os comerciantes e os missionários europeus. Aplicou-se a sociedade o que Darwin (1809-1882) ensinou acerca da evolução das espécies e da seleção natural: só sobrevive o mais forte. Isso significa: os povos considerados menos desenvolvidos e as classes tidas por mais fracas devem ser subordinados aos autoconsiderados mais fortes, no caso aos europeus brancos e cristãos. Estes assumiram, efetivamente, a função de mostrar a todos aqueles o seu lugar de subordinados. E de conduzi-los para lá geralmente utilizando a violência, muita violência.

Entretanto, não é suficiente denunciar a vontade de poder-dominação com suas incontáveis vítimas. Há por detrás uma raiz ainda mais funda que no nosso livro Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres tentamos aprofundar. Voltaremos a ela mais adiante em nossa reflexão. Aqui acenamos apenas com uma rápida consideração. O ser humano, na sua aventura evolucionária, foi se afastando lentamente de sua casa comum, a Terra. Foi quebrando os laços de coexistência com os demais seres, seus companheiros na eco-evolução. Perdeu a memória sagrada da unicidade da vida nas suas incontáveis manifestações. Esqueceu a teia de interdependências de todos os seres, de sua comunhão com os vivos e da solidariedade entre todos. Colocou-se num pedestal. Pretendeu, a partir de uma posição de poder, submeter todas as espécies e todos os elementos da natureza. Tal atitude introduziu a quebra da re-ligação de todos com todos. Eis o pecado de origem de nossa crise civilizacional que está chegando nos dias de hoje ao seu paroxismo.

Temos que encontrar o elo perdido. Urge refazer o caminho de volta, como filhos pródigos, à casa materna comum, à Terra. Abraçar os demais irmãos e irmãs, as plantas, os animais e todos os seres. Para regressar do exílio a que nos submetemos, como na parábola bíblica do filho pródigo, temos que alimentar saudades e cultivar sonhos.

 

4.   Que sonhos nos orientam?

 

Para refazer a aliança com a Terra e selar um pacto de benquerença para com todos os seres, os sonhos são da maior importância. Morrem as ideologias e envelhecem as filosofias. Mas os sonhos permanecem. São eles o húmus que permite continuamente projetar novas formas de convivência social e de relação para com a natureza. Com acerto escrevia o cacique pele-vermelha Seattle, ao governador Stevens, do Estado de Washington em 1856, quando este forçou a venda das terras indígenas aos colonizadores europeus. O cacique, com razão, não entendia por que se pretendia comprar a terra. Pode-se comprar e vender a aragem, o verde das plantas, a limpidez da água e o esplendor da paisagem? Neste contexto reflete que os peles vermelhas compreenderiam o porquê e a civilização dos brancos “se conhecessem os sonhos do homem branco, se soubessem quais as esperanças que esse transmite a seus filhos e filhas nas longas noites de inverno, e quais as visões de futuro que oferece para o dia de amanhã”.

Qual é o nosso sonho? Que esperança transmitimos aos jovens? Que visões de futuro ocupam as mentes e o imaginário coletivo através das escolas, dos meios de comunicação e de nossa capacidade de criar valores? Que cuidado desenvolvemos para com a natureza e que benevolência suscitamos para com todos os seres da criação? Que novas tecnologias utilizamos que não neguem a poesia e a gratuidade? Que irmandade estabelecemos entre todos os povos e culturas? Que nome damos ao Mistério que nos circunda e com que símbolos, festas e danças o celebramos?

As respostas a estas indagações geram um novo padrão civilizatório. Face às transformações que atingem os fundamentos de nossa civilização atual indagamos: quais são os atores sociais que propõem um novo sonho histórico e desenham um novo horizonte de esperança? Quem são os sujeitos coletivos gestadores da nova civilização?

Sem detalharmos a resposta podemos dizer: eles se encontram em todas as culturas e em todos os quadrantes da Terra. Eles irrompem de todos os estratos sociais e de todas as tradições espirituais. Eles estão em toda parte. Mas são principalmente os insatisfeitos com o atual modo de viver, de trabalhar, de sofrer, de alegrar-se e de morrer, em particular, os excluídos, os oprimidos e os marginalizados. São aqueles que, mesmo dando pequenos passos, ensaiam um comportamento alternativo e enunciam pensamentos criadores. São ainda aqueles que ousam organizar-se ao redor de certas buscas, de certos níveis de consciência, de certos valores, de certas práticas e de certos sonhos, de certa veneração do Mistério e juntos começam a criar visões e convicções que irradiam uma nova vitalidade em tudo o que pensam, projetam, fazem e celebram.

Por tais sendas desponta a nova civilização que será de agora em diante não mais regional mas coletiva e planetária, e, esperamos, mais solidária, mais ecológica, mais integradora e mais espiritual.

 

5.  A civilização da re-ligação

 

Que nome vamos dar à civilização emergente? Ensaiamos uma resposta: será uma civilização mais sintonizada com a lei fundamental do universo que é a panrelacionalidade, a sinergia e a complementaridade. Será a civilização da re-ligação de tudo com tudo e de todos com todos.

Que experiência fontal fará encontrar o elo re-ligador? Sem maiores mediações aventamos a hipótese de que será uma nova experiência do sagrado. O sagrado não é uma coisa. É a qualidade luminosa das coisas. Trata-se de uma irradiação que emana de todo existente, de cada pessoa e do inteiro universo. Tudo pode causar admiração e encantamento. Tudo pode conter uma mensagem a ser decifrada. Tudo, pode ser portador de um mistério. Mistério não constitui um enigma que, decifrado, desaparece. Mistério é a profundidade de cada realidade que, conhecida, nos desafia a conhecer mais e que permanece sempre mistério em todo o conhecimento. Mistério não é o limite do conhecimento, mas o ilimitado do conhecimento. Esse conhecimento-mistério não é frio e formal. É carregado de emoção, de significado e de valor. Por isso é um conhecimento cordial. Produz uma experiência interior perpassada de comoção . A percepção do sagrado das coisas é um dado originário e irredutível.

A estrutura do sagrado ou do numinoso, como foi detectada pelos estudiosos antigos e modernos, se organiza ao redor de duas expenriências seminais:  a do fascinosurn (fascinante) e a do tremendum (temível). A realidade nos fascina como o Sol, nos atrai poderosamente e nos enche de entusiasmo. E, ao mesmo tempo, suscita em nós o temor, leva-nos à fuga, pois como o Sol pode cegar-nos e queimar-nos. Quando confrontados com a Suprema Realidade, essa experiência irrompe avassaladora, como testemunham pessoas religiosas e místicas de todos os tempos e lugares. Esta experiência evoca um sentimento profundo: de veneração, de encantamento, de respeito e de reverência.

Semelhante sentimento emerge quando contemplamos a Terra a partir do espaço exterior. Parece uma bola de natal, azul-branca, cheia de vitalidade, dependurada no universo. É o nosso planeta, o único que temos. Sentimos reverência e temor por seu encantamento e pelos riscos que corre.

Estas atitudes são fundamentais se quisermos salvaguardar a vida e resgatar a dignidade de nossa grande Mãe, Pacha Mama e Gaia, a Terra. Sem o cultivo da experiência do sagrado não conseguimos impor limites à voracidade depredadora do tipo de desenvolvimento dominante, nem salvar ecossistemas e espécies vivas ameaçadas de extinção.

Entretanto só nos abriremos ao sagrado da Terra, do ser humano, do universo e de tudo o que nele se contém se, antes, criarmos a precondição de sua emergência. E esta se encontra na dimensão da anima, do feminino, no homem e na mulher, tão recalcada desde o neolítico e na cultura técnico-científica da modernidade.

O feminino é a capacidade de captarmos totalidades articuladas, de termos inteireza, de cultivarmos o mundo interior, de desenvolvermos níveis profundos de espiritualidade, de pensarmos por intermédio do corpo, de apreendermos, na nossa intimidade, as ressonâncias do mundo exterior em termos de símbolos e de arquétipos, de darmos espaço à ternura e ao cuidado, de abrir-nos ao sentimento, à gratuidade e à sensibilidade para com o mistério das pessoas, da vida e do inteiro universo.

É o esprit de finesse, proposto por Blaise Pascal (1623-1662), que se distingue do esprit de géometrie. O espírito de finura representa, nos homens e nas mulheres, a dimensão do feminino, com as características sinalizadas acima. Ela se completa com a dimensão do masculino, nas mulheres e nos homens, que é o espírito de geometrias a capacidade de ordenação, de racionalização, de abertura de caminhos, de superação de dificuldades e de construção de um projeto de vida ou de civilização. Esse, o espírito de geometria, foi inflacionado nos últimos séculos mediante a aventura técnico-científica da humanidade, recalcando o feminino, em detrimento de uma experiência mais global e integradora do ser humano.

Importa, nesta quadra da história, recuperarmos a dimensão do feminino. É ela que nos abre ao sagrado e à veneração tão necessária para inaugurarmos uma civilização da re-ligação, do reencantamento da natureza e da veneração pelo universo. Será seguramente a experiência do sagrado e do numinoso que funcionará como elo articulador e como a experiência seminal da nova civilização nascente. Cabe enfatizar: esta experiência é antropológica. Está ligada à estrutura básica do ser humano. Re-liga o ser humano continuamente à Fonte originante. Não é monopólio das religiões. Antes, da re-ligação provém a re-ligião.

Função primacial da religião é religar a pessoa ao seu Centro, onde mora a divindade com seu brilho. A partir da recuperação do sagrado, entrevisto em todas as coisas, os seres humanos darão novo alento às religiões históricas e às várias tradições espirituais ou reinventarão outras religiões ou caminhos espirituais.

Esta espiritualidade, fundada na re-ligação, na experiência da anima e do sagrado, deixa para trás as religiões de cunho patriarcal. O próprio cristianismo assumiu as características patriarcais, ausentes na experiência de Jesus, que é antes feminina. Ele apresenta o Abba (paizinho) celestial com características de mãe, cheia de misericórdia e reconciliação. Mas foi traduzida (e em parte traída) no quadro da dominação dos homens que se entendem os únicos representantes de Deus e de Cristo (hierocracia, clericalismo, celibatarismo). Esta forma patriarcal de religião introduziu profundos dualismos: entre Deus e mundo, espírito e matéria, vida terrena e vida eterna, religião natural e religião revelada, religião verdadeira e religiões falsas. A nova religião que integra o masculino e o feminino (animus e anima) enfatiza a ligação entre fé e vida. Identifica a profunda unidade da experiência espiritual, expressa nos muitos caminhos e religiões. Sublinha o panenteísmo pelo qual se afirma: Deus está em todas as coisas e todas as coisas estão em Deus. Há comunhão e não separação entre Deus e criatura. Deus não habita apenas nos céus, mas em todas as partes, especialmente na profundidade do coração humano.

Por causa de todos esses valores, a civilização da re-ligação dará centralidade à religião e à espiritualidade como aquela instância que se propõe re-ligar todas as coisas entre si, com o ser humano e com o Supremo, porque as vê todas re-ligadas umbilicalmente com o seu Criador. Esta civilização emergente será religiosa ou não será. Pouco importa o tipo de religião - ocidental, oriental, antiga, moderna - contanto que seja aquela que veicule e alimente continuamente a experiência radical de re-ligação, expressa em mil caminhos religiosos e espirituais, experiência que consiga re-ligar, efetivamente, todas as coisas e gestar um sentido de totalidade e de integração. Então poderá surgir a civilização da etapa planetária, da sociedade terrenal, a primeira civilização da humanidade como humanidade.

Sentir-nos-emos todos enredados numa mesma consciência coletiva, numa mesma responsabilidade comum, dentro de uma mesma e única arca de Noé, que é a nave espacial azul-branca, a Terra. Nela e com ela nos salvamos ou nos perdemos todos.

 

6. A emergência de uma civilização planetária

 

Esta nova civilização não é apenas um desiderato e um sonho ridente. Ela está emergindo.

Vem, antes de mais nada, sob o nome de mundialização e de globalização. Trata-se de um processo irreversível. Representa indiscutivelmente uma etapa nova na história da Terra e do ser humano. Estamos superando os limites dos estados-nações e rumando para a constituição de uma única sociedade mundial que mais e mais demanda uma direção central para as questões concernentes a todos os humanos como a alimentação, a água, a atmosfera, a saúde, a moradia, a educação, a comunicação e a salvaguarda da Terra.

É verdade que estamos ainda na fase da globalização competitiva, oposta à globalização cooperativa, que supõe uma outra economia estruturada ao redor da produção do suficiente para todos, seres humanos e demais seres vivos da criação. Mas ela preenche uma condição fundamental: criar as bases materiais para outras formas de mundialização, mais importantes e necessárias.

Efetivamente, quer queiramos ou não, já está se anunciando também uma mundialização sob o signo da ética, do senso da compaixão universal, da descoberta da família humana e das pessoas dos mais diferentes povos, como sujeitos de direitos incondicionais, direitos não dependentes do poder econômico e político dos povos ou do dinheiro de seu bolso, nem da cor de sua pele, nem da religião que professam. Estamos todos sob o mesmo arco-íris da solidariedade, do respeito e valorização das diferenças e movidos pela amorização que nos faz a todos irmãos e irmãs.

A mundialização far-se-á também na esfera da política que deverá reconstruir as relações de poder, não mais na forma de dominação/exploração sobre as pessoas e a natureza, mas na forma da mutualidade biofílica ( = reciprocidade entre os seres vivos) e da colaboração entre todos os povos, base para a convivência coletiva em justiça, em paz e em aliança fraternal/sororal com a natureza. Ela deverá organizar-se ao redor de uma meta comum: garantir o futuro do sistema-Terra e as condições para o ser humano poder continuar a viver e a desenvolver-se, como já vem fazendo há cerca de 10 milhões de anos.

Por fim haverá, seguramente, uma mundialização da experiência do Espírito no cultivo das energias espirituais que pervadem o universo, trabalham a profundidade humana e das culturas e reforçam a sinergia, a solidariedade, o amor à vida a partir dos mais ameaçados e a veneração do Mistério que em tudo penetra e em tudo esplende, mistério cultuado na oração, na contemplação e no caminhar à sua luz.

Estamos diante de um experimento sem precedentes na história da humanidade. Ou criamos nova luz, ou vamos ao encontro das trevas. Ou trilhamos o caminho de Emaús da partilha e da hospitalidade para todos, ou então experimentaremos o caminho do Galvário, a descida solitária ao inferno em cujo portal Dante Alighieri escreveu: “deixai toda esperança, vós que entrais”.

 

7. A hora e a vez da águia

 

A construção da nova civilização no Terceiro Milênio passa por um gesto de extrema coragem. A coragem de fazer caminho onde não há caminho. Já e agora. Em momentos cruciais, da prova maior, onde vamos inspirar-nos? De que fundo vamos tirar os materiais para a nova construção?

Devemos imbuir-nos da esperança de que o caos atual prenuncia uma nova ordem, mais rica e promissora de vida para todos. Bem versejava Camões (1524-1580):

“Depois de procelosa tempestade

Soturna noite e sibilante vento

Traz a manhã serena claridade

Esperança de porto e salvamento”.

Mas, para que este salvamento ocorra, precisamos ter bem clara a convicção de que este futuro necessário não se fará a partir dos princípios que organizaram o passado. Foram eles que levaram ao impasse atual. Quem ainda persiste em neles crer, labora num profundo equívoco. E desta vez não há tempo para ensaios, equívocos e erros. Pois não haverá possivelmente tempo para correções.

Em contextos assim devemos recorrer às grandes metáforas, cujo sentido emerge cristalino. Voltamos a apontar a história de um educador e líder político da pequena república de Gana, na África Ocidental, James Aggrey (+1927). Ela foi objeto de nosso primeiro livro A águia e a galinha, uma metáfora da condição humana. Vamos novamente transcrevê-la, dada a sua beleza e sua densidade.

“Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/a rainha de todos os pássaros.

Depois de 5 anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:

-   Esse pássaro aí não é galinha.É uma águia.

-   De fato - disse o camponês. É águia. Mas eu criei-a como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de envergadura.

-   Não -  retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.

-   Não, não -  insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.

Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:

- Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!

A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.

O camponês comentou:

- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!

- Não - tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no telhado da casa. Sussurrou-lhe:

- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!

Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.

O camponês sorriu e voltou à carga:

-  Eu lhe havia dito, ela virou galinha!

- Não - respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas

O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:

- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!

A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova Vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do Sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou... voou.... até confundir-se com o azul do firmamento...

E terminou conclamando:

- Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar”.

Antecipando uma reflexão que detalharemos, já podemos dizer: todos nós temos, de um jeito ou de outro, uma dimensão-galinha e uma dimensão-águia dentro de nós.

A dimensão-galinha é o sistema social imperante, o nosso arranjo existencial, a nossa vida cotidiana, os hábitos estabelecidos e o horizonte de nossas preocupações. São também as limitações, os enquadramentos e formações histórico-sociais que, quando absolutizados, se transformam em impasses, em descaminhos, em falta de perspectiva e em desesperança para as pessoas e para as coletividades.

A dimensão-águia são os sonhos, os projetos, os anelos, os ideais e as utopias que, mesmo frustrados, nunca morrem em nós porque sempre de novo ressuscitam. Eles representam a águia em nós, águia que nos ergue continuamente para o alto, para descobrir novos caminhos e direções diferentes. Para recordar-nos o chamado do novo possível.

Ai de quem deixa morrer a águia dentro de si ou permite que ela se transforme numa galinha! Ou indiferentemente aceita que uns poucos se organizem para reduzir todos a simples galinhas. Somos águias! Águias feitas para as alturas!

O momento atual significa a hora e a vez da águia. Não pede uma reflexão específica sobre a galinha. A dimensão-galinha é dominante nos tempos atuais. O que importa é resgatar a dimensão-águia, articulada com a dimensão-galinha. Esta opção pela águia é a condição de nossa sobrevivência e de inauguração promissora da nova civilização e do Terceiro Milênio. Ou então seremos condenados a continuar galinhas ou águias que foram domesticadas e desnaturadas para permanecer junto às galinhas.

- Jovens, mulheres, homens, trabalhadores, intelectuais, artistas, políticos, religiosos de todos os credos, não vos resigneis à situação de galinhas. Acordai a águia que está dentro de vós! Ousai o vôo das alturas. Inventai caminhos novos. Tirai da própria fonte, das virtualidades presentes em vós, do vosso imaginário, dos vossos sonhos e das vossas utopias mil razões para lutar, para viver e para criar. Olhai para a história do universo em contínua gênese, por isso em cosmo-gênese, como ele trabalhou contra o caos e o dia-bólico e contra as grandes dizimações para transformar-se em cosmos e em sim-bólico e chegar até o presente. Olhai para dentro de vós mesmos. Descobri aí dentro a presença da águia e o sim-bólico, vale dizer, as energias originárias que gestaram a ordem do universo e que vos gestam a cada momento. Daí poderá vir o novo horizonte que salva e liberta o futuro para a vida e para a esperança. Desentranhemos e alimentemos todos juntos, molecularmente, já agora os valores da nova civilização e o sonho do Terceiro Milênio.

 

BOFF, Leonardo. O despertar da águia: O dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. Petrópolis,RJ. Vozes. 179p. Pg.25-43.