Provocações filosóficas II

Mário Sérgio Cortella

 

(Do livro Não nascemos prontos! – provocações filosóficas. Petrópolis,RJ: Vozes, 2006)

  

A ambígua solidão

 

Nunca, em toda a história, tivemos tantas concentrações urbanas com a inacreditável densidade populacional como as que temos atualmente; esses exorbitantes adensamentos humanos vêm perdendo, pouco a pouco, os contornos de uma comunidade e transformando-se em meros agrupamentos. Assim, em inúmeras regiões - não importando o tamanho da cidade, e sim, a ruptura social - estamos muito próximos do limite da suportabilidade, dentro de uma forçada convivência, com contínuos confrontos de complexas e difusas necessidades, carências e ganâncias.

Há uma imensa diferença entre agrupamento e comunidade; esta pressupõe partilha de interesses e cuidado protetor mútuo, enquanto aquele se resume a uma simples agregação de pessoas com raros objetivos coletivos comuns, pontuado por sinais de uma filantropia que, no mais das vezes, por ser calculista e interesseira, beira o cinismo utilitarista. No entanto, mesmo em meio à multidão (e o sabemos por experiência própria ou relatada) é possível sentir-se sozinho; conhecemos, por nós ou pelos outros, a condição de viver em cidades com milhares e milhares de outras pessoas e, ainda assim, experimentar e desejar a solidão.

De uma certa maneira, essa realidade angustiante (estar só, entre muitos; participar com outros da aglomeração de adversários) nega uma das mais fortes convicções do filósofo francês Gabriel Marcel que, em meados do século 20, acreditava que “a solidão é essencial à fraternidade”. Parece que nos nossos tempos ela, a solidão, voluntária ou involuntária, serve mais como refúgio ou abandono do que, de fato, como momento reflexivo. Olhando as nossas inclementes metrópoles, é provável, até, que outro francês, o escritor Drieu La Rochelle (que solitariamente suicidou-se em 1945, após a derrota dos nazistas, com quem tardiamente colaborara), estivesse certo ao dizer que “a cidade não é a solidão, porque a cidade aniquila tudo quanto povoa a solidão. A cidade é o vazio”.

Esse melancólico pensamento encarna-se em parte da inquietante e ainda atual obra do inglês Aldous Huxley (com quem um La Rochelle pré-fascista tivera ligação no começo do Surrealismo); no Admirável Mundo Novo, um mundo pleno de vazios, Huxley afirma que “se somos diferentes, é fatal que estejamos sós”. Quem se importa?, bradariam muitos. Afinal, como lembrou seu quase contemporâneo, o irlandês Oscar Wilde, “as tragédias alheias são sempre de uma banalidade desesperante”.

O fabulista Jean de la Fontaine afirmava que “bem melhor sozinho do que com tolos”; já o pensador Paul Valéry dizia que “um homem sozinho está sempre em má companhia”. Quem está com a razão? O ‘‘antes só do que mal acompanhado’’ parece triunfar sobre “o nenhum homem é uma ilha”; a base para a derrota da sociabilidade autoprotetora está em partir da constatação de que, conformando-nos em viver em agrupamentos e não em comunidades, continuamente se está mal-acompanhado. Então, vamos ao cada um por si (e qual Deus por todos?) e, claro, retornando ao parentesco original, cada macaco no seu galho.

É por isso que os termos “solidão” e “solidariedade” são assemelhados apenas na aparência, jamais no conteúdo; solidariedade vem de ‘‘solidez’’, daquilo que consolida e dá firmeza à vida coletiva, enquanto que solidão está atada à idéia de ser e ou estar “por si mesmo”, em puro isolamento. A quebra do ideal da fraternidade nos incomoda e entristece, mas não tem conduzido muitos ao enfrentamento decidido e solidário.

Gustave Flaubert nos acautelou: “Cuidado com a tristeza. Ela é um vício”. Seria também assim a solidão isolante e narcísica?

 

O triunfo da morbidez?

 

 O pensador francês Blaise Pascal, um dos mais influentes filósofos e cientistas da nossa cultura desde o século 17, dedicou boa parte de seu trabalho reflexivo aos temas que, dizia, vão além da capacidade humana de entendimento, repousando a inserção deles exclusivamente no terreno do místico e do insondável. Pascal exercitava o que chamamos (às vezes cinicamente) de “perscrutar a alma humana”, em busca de explicações sobre nós e o sentido daquilo que fazemos e, apreciador de aparentes paradoxos, dizia que “quando estamos de boa saúde, admiramo-nos de como seria possível estar doentes; quando isso acontece, medicamo-nos alegremente”.

Há uma extrema contemporaneidade nessa perspectiva pascaliana, principalmente agora, quando tratar da doença, em vez de consolidar a saúde, tornou-se uma rotina reconfortante. Se Aceita com tranqüilidade, por exemplo, a idéia de que o stress agudo e suas outras decorrências faz parte da vida cotidiana e, dessa forma, sendo uma conseqüência da “normalidade” de nossa existência, é necessário absorver maneiras de coabitação com ele; tomar medicamentos (e trocar receitas e referências médicas) tornou-se uma obsessão e uma temática recorrente nas inúmeras situações de convívio que a vida extensamente urbana impõe.

Qualquer ocasião de encontro entre pessoas, fortuito ou intencional (no trabalho, nas festas, nos deslocamentos, nas filas etc.), é suficiente para, com rapidez, ensejar um frenético escambo de posturas religiosas curativas, sugestões farmacológicas ou dietéticas, indicações profissionais especializadas e, claro, medidas eficazes de profilaxia laboral e espiritual, culminando com algumas hipócritas e falsas versões holísticas que prescrevem ervas cultivadas na terra (envenenada) como se fossem espécies de rosas de Hiroshima.

Assim, ocupamos uma boa parte do nosso tempo fora do mundo do trabalho - incessante e extenuante - cuidando das nossas doenças, só para podermos ficar momentaneamente aptos para continuar agindo do mesmo jeito que agíamos, e, portanto, conseguirmos melhores condições para fortalecer ainda mais as circunstâncias que nos deixam doentes...

Sigmund Freud, na segunda década do século 20, deixou de dar atenção estrita aos mecanismos de funcionamento do psiquismo individual e passou a dirigir o olhar psicanalítico (por ele fundado) também para os obstáculos da convivência humana em sociedades complexas; esse inédito esforço resultou, em 1930, na publicação da obra O mal-estar na civilização, na qual ele examina as razões pelas quais cada um de nós aceita reprimir as próprias bases constitutivas originais para sentir-se minimamente seguro em meio aos outros. Ou, como hoje diríamos, para ser socialmente aceito e coletivamente assimilado, vale até mesmo arcar com a custosa perda da autenticidade, da individualidade e da salubridade.

Vivemos agora a civilização do mal-estar? É provável; não estamos nos viciando em remédios, mas, isso sim, em doenças que entendemos como normais, gerando uma passividade brutal, intensamente vivida em torno do patológico e da submissão ao poder sedutor do mórbido. Por isso, o arguto escritor irlandês Bernard Shaw (Nobel de Literatura em 1925) nos avisou: “Mens sana in corpore sano é uma máxima absurda. O corpo são é o produto do espírito são”.

A vida é curta para cuidar de tudo isso? Então, retomemos um contemporâneo e conterrâneo de Pascal, o ensaísta Jean de la Bruyère: “Aqueles que gastam mal o seu tempo são os primeiros a queixar-se de sua brevidade”.

 

 

Quem avisa amigo é...

 

 Tristes tempos! Vivemos numa época de interesses recíprocos, atravessamos um período de pragmatismos mútuos, nos quais as regras da competitividade mortal e de uma base econômica idólatra e implacável nos mecanismos de exclusão, impõe valores gananciosos! Uma norma principal ganha corpo: é bom tudo o que for útil, é adequado tudo o que for lucrativo, é moralmente confortável tudo o que for vantajoso. O princípio central da convivência passa a ser o inesgotável “Uma mão lava a outra”.

A amizade também não conseguiu escapar muito dessa avassaladora pressão; poucas são as relações interpessoais que fogem ao utilitarismo das afetividades simuladas. Cada vez mais temos amizades fugazes, com data de validade restrita; as pessoas vão e vêm rapidamente, acumulando-se uma série de perdas sem que ganhos subjetivos se fortaleçam. Mais e mais conhece-se muita gente e sustenta-se com fragilidade o aprofundamento dessas relações; coloca-se como orientação básica do “mundo dos negócios” (a invadir o tecido social) a necessidade de ampliar ao máximo o número de contatos, sem que, de fato, essas aproximações signifiquem uma intenção de permanência e dedicação. Usa-se com facilidade a palavra “amigo”, em vez de, honestamente, fazer valer as expressões “colega” ou ”conhecido”

Chega-se, inclusive, a uma situação mais defensiva: aqueles e aquelas que recusam qualquer forma de envolvimento nas afeições e na camaradagem, supondo, com densa carga de razão, ser difícil separar o que é uma lealdade sincera e amiga de uma simpatia forjada e circunstancial. A própria idéia de confraternizar, isto é, de estar “entre fraternos”, fica sutilmente obscurecida pela concepção de que é fundamental fazer “network” para poder estar sempre entre os emergentes sociais e laborais, em vez de afundar no destino dos meros sobreviventes.

Sem desejar produzir um recurso à nostalgia tola, é saudável lembrar: bons tempos aqueles nos quais se podia acreditar no que Aristóteles, já no século 4 a.C., afirmava na Ética a Nicômaco: ”a amizade é uma alma com dois corpos”. Parece que o ideal aristotélico vem sendo superado por uma perspectiva muito bem expressa pelo, eventualmente satírico, filósofo francês Montesquieu: “A amizade é um contrato segundo o qual nos comprometemos a prestar pequenos favores para que no-los retribuam com grandes”.

É claro que continuam persistindo as amizades duradouras, aquelas que, passados meses ou anos, tem-se a sensação de que a distância temporal não valeu, a intimidade permanece viva e o apoio irrestrito prossegue incólume; afinal, como refletia Jean Cocteau, sensível poeta e diretor de grandes clássicos do cinema francês, “a felicidade de um amigo deleita-nos, enriquece-nos, não nos tira nada. Caso a amizade sofra com isso, é porque não existe”.

É por isso que Chamfort, em obra póstuma chamada Pensamentos, máximas e anedotas (publicada em 1795, pouco depois do suicídio em Paris) afirmava que “neste mundo temos três espécies de amigos: aqueles que nos amam, aqueles que não se preocupam conosco, e os que nos odeiam”. A mesma idéia desponta no século seguinte, com a característica ironia irlandesa de Oscar Wilde: “Toda a gente é capaz de sentir os sofrimentos de um amigo. Ver com agrado os seus êxitos exige uma natureza muito delicada”.

Ainda tem de valer o ditado italiano Amicizia que cessa non fu mai vera, isto é, em pura tradução mais livre, “Amizade que acaba nunca principiou”...

  

A resignação como cumplicidade

 

 O escritor suíço Denis de Rougemont, um arguto defensor da unidade européia e, especialmente, um estudioso da ocidentalidade, disse algo (em meados do século passado) que inspirou discursos conhecidos de muitos políticos: “A decadência de uma sociedade começa quando o homem pergunta a si próprio: ‘O que irá acontecer?’, em vez de inquirir: ‘O que posso eu fazer?”’

A decadência (seja ela na sociedade mais ampla, seja em quaisquer instâncias como família, trabalho, política etc.) principia quando o imperativo ético da ação é substituído pela acomodação e pela espera desalentada, isto é, quando se abre mão do dever que emana da liberdade e se exige, para ser exatamente livre, uma intervenção consciente. Isto é lembrado em função de um sorrateiro entorpecimento que acomete a muitos, aniquilando pouco a pouco a capacidade de reagir e apontar como fora de lugar muitas coisas que parecem encaixar-se, sem arestas, na vida cotidiana e que precisam ser fortemente rejeitadas, de modo que esta não dê lugar ao abatimento que apenas aguarda, em vez de buscar provocar resultados.

Estamos nos acostumando - com rapidez e sem resistência ativa - com alguns desvios que parecem fatais e inexoravelmente presentes, como se fizessem “parte da vida”: violência, desemprego, fome, corrupção e outros.

É a prostração como hábito! É o conveniente pesar estampado no rosto e nas palavras, para disfarçar uma simulada impotência individual, mas que, no fundo, é expressão de um egonarcisismo indiretamente conivente. Tão confortável assim pensar... Lembre-se, então, de Fernando Pessoa, para o qual “na véspera de não partir nunca, ao menos não há que arrumar malas”.

Pode-se argumentar que, felizmente, ainda há muita esperança. Mas, como insistia o inesquecível Paulo Freire, não se pode confundir esperança do verbo esperançar com esperança do verbo esperar. Aliás, uma das coisas mais perniciosas que temos nesse momento é o apodrecimento da esperança; em varias situações as pessoas acham que não tem mais jeito, que não tem alternativa, que a vida é assim mesmo... Violência? O que posso fazer? Espero que termine... Desemprego? O que posso fazer? Espero que resolvam... Fome? O que posso fazer? Espero que impeçam... Corrupção? O que posso fazer? Espero que liquidem... Isso não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo. E se há algo que Paulo Freire fez o tempo todo foi incendiar a nossa urgência de esperanças.

Seria possível também usar aqui palavras como desalento, desânimo, ou até covardia tolerante. Julio Cortazar, o argentino que deu novos contornos à prosa latino-americana dos anos 1960 em diante, afirmava que “a covardia tende a projetar nos outros a responsabilidade que não se aceita”. Ou, pensado de outra forma, visite-se o romancista francês Jules Renard, com sua obra permeada por ironias cruéis (uma delas aqui representada em 1957 por Cacilda Becker com o nome de Pega-fogo): “Dando ouvidos apenas à sua coragem que nada lhe dizia, ele absteve-se de intervir”...

Por isso, resignar-se é, de forma contundente, concordar involuntariamente ou, até, ser cúmplice passivo. Melhor ficar com o vaticínio de André Destouches, compositor e diretor artístico da Ópera de Paris no reinado de Luís XV; o músico, especializado em tragédias líricas (como as que muitos pensam estar vivendo), advertia que “os ausentes nunca têm razão”.

 

Janus à espreita

 

Na religião romana da Antigüidade há um deus chamado Janus, sempre representado por uma cabeça com dois rostos opostos, de modo a olhar para frente e para trás; essa divindade era considerada protetora dos começos, isto é, da hora inicial do dia e do primeiro mês do ano (Januarius), pois, assim, abria e fechava todas as coisas e guardava o passado (ano findante) e o futuro (ano novo).

Para poder proteger inícios e términos vitais, o francês Marcel Proust publicou nas primeiras décadas do século 20 (usando primeira pessoa e produzindo um monólogo interior em 16 volumes!) uma das mais importantes obras de toda a Literatura: Em busca do tempo perdido. É provável que o escritor quisesse viver no romance aquilo que acreditava, ao afirmar que “certas recordações são como os amigos comuns: sabem fazer reconciliações”.

Recordações! Olhar para a trás e reconciliar o futuro! É claro que o fundamental não é procurar o tempo perdido, mas, isso sim, aquilo que no tempo perdeu-se e não deveria tê-lo feito; lembramos o que já se foi para orientar o desejo daquilo que deve vir. No entanto, a maior parte das pessoas em nossa época vem se preocupando mais com as metas (que são pontos de chegada) do que com os princípios (que são pontos de partida).

Quais deveriam ser, então, os nossos valores? Garantir a integridade da vida, promover a sinceridade das relações interpessoais, realizar a lealdade fraterna e fortalecer a fidelidade ao solidário? Os valores são exatamente os princípios (os começos protegidos por Janus...) e constituem o amálgama que agrega e orienta as atitudes individuais para a efetivação das intenções e finalidades de uma coletividade; valores são referências de conduta (grupal e pessoal) em torno das quais um coletivo compreende e legitima o exercício de suas atividades conjuntas, valores representam a possibilidade de convergência honesta dos propósitos usualmente dispersos na convivência multifacetada e, quando apropriados (tornados próprios) por cada um, diminuem o risco de artificializar e retirar autenticidade dos contatos presentes no cotidiano.

Assim caminha a humanidade... Caminha junta? Caminha camuflada e amedrontada? Caminha agora mais sozinha do que antes? Caminha em direção ao outro? Basta um exemplo a bem recordar: há poucas décadas, independentemente do tamanho da cidade, quando alguém, tarde da noite, saía a pé de algum lugar (trabalho, escola, igreja, clube etc.) e caminhava só em direção ao próprio lar, ouvir passos de outra pessoa representava um certo alívio: Agora vou ter companhia! E os dois seguiam andando juntos... Hoje, quando, na mesma circunstância, são ouvidos ruídos humanos, já se pensa: Meu Deus do céu, vem vindo alguém...

O que aconteceu? Qual princípio foi violentado? Antes o outro era até um amparo; tínhamos medo, quando muito, de alma de outro mundo. Do que se tem medo agora? Do outro, porque, em vez de ser alguém que pode te proteger, é eventual ameaça feroz.

No século anterior ao de Proust, o poeta inglês George Gordon Byron nos desafiava, dizendo que “a recordação da felicidade já não é felicidade; a recordação da dor ainda é dor”. Por isso, é preciso reviver o relato inserido no princípio da Bíblia judaico-cristã no qual há um trecho conhecido (e muito esquecido): logo após a narrativa do primeiro assassinato e o conseqüente estilhaçamento original da fraternidade (a ser refeita), o Criador procura o criminoso que, cinicamente, alega isenção. “O Senhor disse a Caim: ‘Onde está o teu irmão Abel?’ ‘Não sei’, respondeu ele. ‘Serei eu o guarda de meu irmão?”’

Pergunta e resposta continuam ecoando nestes novos recomeços...

  

Humana armadilha

 

Há uma hilariante e inesquecível tirinha entre as milhares desenhadas pelo argentino Joaquin Salvador Lavado, o Quino, na qual, usando da aguda - embora atordoada - inteligência de Mafalda (sua mais conhecida personagem, inventada em 1963), ele consegue expressar com clareza alguns dos meandros que envolvem a existência humana. No primeiro quadrinho dessa tira Mafalda se aproxima de uma loja de esquina onde há um idoso chaveiro; no quadrinho seguinte entra no prédio e, sarcasticamente, diz a ele: “Bom-dia. Quero uma chave da felicidade”; sem demonstrar espanto, no terceiro quadrinho ele dirige um olhar complacente e responde: “Com certeza, menina. Traz o modelo?”; sai ela então da loja, caminhando sem graça e pensando; “Espertalhão o velhinho!”

O modelo, onde está o modelo? Ou, melhor ainda, existiria um modelo? Precisa haver? Múltiplas são as pistas sobre o lugar onde se encontra a “chave da felicidade” e, claro, o provável modelo; alguns o situam na arte desprendida, outros na religião obsessiva, muitos no consumo desvairado, vários na política indolente, poucos na filosofia militante, inúmeros no trabalho insano, raros na dignidade coletiva.

O que seria esse almejado horizonte que uma chave desconhecida, distante ou simplesmente invisível, poderia proporcionar o acesso? Felicidade pode ser estado de espírito, e não uma situação material; pode, ainda, despontar como um sentimento passageiro ou um devaneio fugaz. Marcando-se em nossa existência sempre como uma ocorrência episódica, remete-se, talvez, ao terreno ocupado por uma sabedoria misteriosa contida na frase do escritor e polemista francês Barbey d’Aurevilly - que no século 19 era, curiosamente, um difusor e admirador do satanismo - ao dizer que “o prazer é a felicidade dos loucos; a felicidade é o prazer dos sábios”.

Qual seria, então, a carga de verdade contida na advertência feita pelo muçulmano Saadi, escritor lírico cuja obras foram as primeiras poesias persas a serem traduzidas para o Ocidente moderno? Em meados do século 13, após ter sido libertado das mãos dos cruzados e se enclausurado voluntariamente em uma espécie de convento, escreveu (em pleno deserto!) a coletânea O jardim das rosas e nela registrou (indicando uma das chaves possíveis): “Lamente por aquele que julga haver achado a felicidade, inveje aquele que a procura e a abandonará, tão logo a encontre. A única felicidade consiste em esperar a felicidade”.

Por isso, a idéia de chave lembra uma reflexão de Gilberto Amado, diplomata brasileiro eleito membro imortal da Academia Brasileira de Letras no mesmo ano em que nascia Mafalda; em meio à extensa obra memorialista e ensaística do escritor sergipano destaca-se o livro inicial, A chave de Salomão (1914), um elogio ao espírito contemplativo e nesse ensaio ele afirma que “a felicidade é sinônimo de tranqüilidade; ser feliz é ser tranqüilo”.

Ser feliz é ser tranqüilo! Felicidade como estado de serenidade, como a capacidade de atravessar as perturbações cotidianas sem resvalar para o desespero; felicidade como possibilidade de amainar a consciência e repousar a mente muitas vezes atormentada; felicidade como vivência plácida, mas distante do imobilismo e bem próxima da paz. Porém, nova complicação, o que é estar em paz?

Felicidade! Sensação primordial ou meta inalcançável, conquista paulatina ou ingenuidade pueril? Liberdade de busca ou armadilha romântica?

Se o soubéssemos , seríamos mais felizes?

 

Sábia consciência

 

 Há uma procura muito intensa hoje em dia pelo atingimento de um lugar aparentemente desconhecido: a morada da sabedoria, O fastio provocado por um modo liberticida e materialista de existir, somado ao cansaço resultante da oferta incessante de inúmeras e ineficazes fórmulas prontas para o sucesso, leva à aspiração por algo misterioso e extremamente desejado. O sintoma mais evidente dessa ânsia está na profusão de medicinas, religiões, literaturas e rituais que anunciam um ponto de chegada que acalmará os espíritos e cessará a turbulência de mentes atormentadas pela busca de um sentido para a própria existência.

Parodiando o título da estupenda obra do escritor francês Marcel Proust, parece que agora é preciso irmos céleres “em busca do tempo perdido”. No entanto, o romancista mesmo, em A sombra das raparigas em flor, nos ensina que a sabedoria não se transmite, é preciso que a gente mesmo a descubra depois de uma caminhada que ninguém pode fazer em nosso lugar, e que ninguém nos pode evitar, porque a sabedoria é uma maneira de ver as coisas”.

Sabedoria, uma maneira de ver as coisas! Claude Lévi-Strauss, antropólogo conterrâneo de Proust e, sem dúvida, o mais importante estudioso contemporâneo das culturas, escreveu em O cru e o cozido que “o sábio não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é o que formula as verdadeiras perguntas”.

É necessário fazer outras perguntas, ir atrás das indagações que produzem o novo saber, observar com outros olhares através da história pessoal e coletiva, evitando a empáfia daqueles e daquelas que supõem já estar de posse do conhecimento e da certeza. Tempos de arrogância estes nossos! Muitos cientistas se arvoram em detentores da exclusiva posse da verdade, vários governantes assumem posturas petulantes ao recusarem a existência de concepções divergentes, inúmeros especialistas insistem na rejeição aos fatos em nome das teorias, variados líderes religiosos impedem o aforamento da quebra da alienação. Está rareando entre os altamente escolarizados e economicamente beneficiados a imprescindível modéstia sincera, aquela que nos permite enxergar limites nos nossos saberes e poderes.

Por isso, é imprescindível revisitar um monge beneditino que há aproximadamente 1.300 anos viveu na Inglaterra: Beda, que, além de ter sido santificado pela Igreja do período, era chamado também de o Venerável. Tamanha foi a erudição e honestidade narrativa que sustentou ao escrever uma trajetória de seu país - desde a ocupação romana até aqueles dias - que sua obra tornou-se referência para os estudos históricos medievais.

Um homem como ele, pleno de conhecimentos e admirado pela imensa capacidade intelectual, conseguiu não ser vítima da presunção que acomete a muitos e muitas nessa condição ou, até, longe dela; Beda nos legou (com validade indeterminada!) uma prescrição em forma de advertência, na qual diz que há três caminhos para a infelicidade (ou fracasso): 1) não ensinar o que se sabe; 2) não praticar o que se ensina 3) não perguntar o que se ignora.

Uma tríade assim arremessa a idéia de sucesso para muito além do que muitos acreditam nos nossos modernos tempos; poderíamos dizer - retomando pelo positivo as três advertências de Beda - que o sucesso está na generosidade mental (ensinar o que sabe), na honestidade moral (praticar o que ensina) e na humildade inteligente (perguntar o que ignora). Nesse sentido, o ensinamento do monge está impregnado do que entendemos ser a sabedoria ou, mais ainda, a sapiência.

Mas, como bradava o sólido lema francês do ensaísta Montaigne - no século em que o Brasil era fundado - “que sais-je?” (que sei eu?)...

  

Um persistente cio

 

É muito interessante observar o quanto a ditadura da velocidade e do “não tenho tempo a perder” retiram do cotidiano das metrópoles (e de suas tristes simulações) uma das mais profundas maneiras de aproveitar, de fato, o tempo: a necessária paciência para a fruição, quase degustação lenta, dos movimentos de busca intensa do prazer originário do universo da leitura. Essa insana tacocracia, vivida sem reflexão, produz uma amarga rejeição à eroticidade inerente aos momentos nos quais é preciso entrar no cio emanado da leitura prazerosa, do mergulho intencional e povoadamente solitário que nos atinge quando nos abandonamos aos sussurros que vêm de dentro.

Por isso, ao escrever sobre A arte de amar (nela incluída a capacidade de não admitir a banalização do erótico no sexual), o psicanalista alemão Erich Fromm - nas suas geniais tentativas de juntar as concepções de Marx e Freud, que tanto influenciaram a contracultura dos anos 1970 - nos advertiu que “o homem moderno pensa perder algo - tempo - quando não faz as coisas depressa; entretanto não sabe o que fazer com o tempo que ganha, a não ser matá-lo”.

Há frase mais tola do que a daquele ou daquela que diz “acho que, para passar ou matar o tempo, vou ler alguma coisa”... Ler um livro para matar o tempo? Não! Afonso Arinos de Melo Franco, importante jurista e político mineiro, conhecido mais por ser autor da primeira lei em 1951 contra a discriminação racial, mas que também era escritor (ingressou na Academia Brasileira de Letras em 1958, mesmo ano no qual foi eleito Senador), escreveu em A escalada que “domar o tempo não é matá-lo, é vivê-lo”.

Viver o tempo! Vivificá-lo, torná-lo substantivo e desfrutável. Ora, nada como um bom livro para fazer pulsar a vida no nosso interior, vida essa que, quando absortos na leitura, nos faz esquecer a fluidez temporal e nos permite suspender provisoriamente a mortalidade e a finitude. É um pouco a percepção que teve o russo Turgueniev, um dos principais escritores do século 19. Na inquietante obra Pais e filhos escreveu: “o tempo, que freqüentemente voa como um pássaro, arrasta-se outras vezes que nem uma tartaruga; mas, nunca parece tão agradável como quando não sabemos se ele anda rápido ou devagar”.

Mas, o que é um bom livro? A subjetividade da resposta é evidente. No entanto, é possível estabelecer um critério: um bom livro é aquele que te emociona, isto é, aquele que produz em ti sentimentos vitais, que gera perturbações, que comove, abala ou impressiona. Em outras palavras, um bom livro é aquele que, de alguma maneira, te afeta e impede que passe adiante incólume.

A emoção do bom livro é tão imensa que se torna, lamentavelmente, irrepetível. Alvaro Lins, crítico literário pernambucano que chegou a chefiar a Casa Civil do governo JK, fez uma reflexão no Notas de um diário de crítica que expressa uma parte dessa contraditória agonia: “Ah, a tristeza de saber, no fim da leitura de certos livros, que nunca mais os leremos pela primeira vez, que não se repetirá jamais a sensação da primeira leitura, que não teremos renovada a felicidade de ignorá-los num dia e conhecê-los no dia seguinte”.

Certa vez o grande lingüista e pensador brasileiro Flávio Di Giorgi pergunta a um aluno em um sarau na PUC-SP se ele já houvera lido a Odisséia, de Homero; o jovem, cabeça baixa, um pouco envergonhado, diz que não. Imediatamente, o professor, olhos umedecidos, diz a ele, voz embargada e com a sinceridade de sempre: “Te invejo; eu já li”.

Assim - mesmo que quase tudo hoje em dia dificulte a urgência de vivificar-se com uma boa leitura, especialmente a estafa resultante do desequilíbrio e da correria incessante -, muitos não se deixam humilhar pelos assassinos do tempo; para impedir a vitória da mediocridade espiritual, há os que cantam com Djavan - na belíssima Faltando um pedaço - e sabem que “o cio vence o cansaço”...