Trabalho e alienação
A história dos esforços humanos para subjugar a natureza é também a história da subjugação do homem pelo homem.(Max Horkheimer)
1. Visão filosófica do trabalho
Vimos no capítulo anterior que, pelo trabalho, o homem transforma a natureza, e nessa atividade se distingue do animal porque sua ação é dirigida por um projeto (antecipação da ação pelo pensamento), sendo, portanto, deliberada, intencional.
O trabalho estabelece a relação dialética entre a teoria e a prática, pela qual uma não pode existir sem a outra: o projeto orienta a ação e esta altera o projeto, que de novo altera a ação, fazendo com que haja mudança dos procedimentos empregados, o que gera o processo histórico.
Além disso, para que o distanciamento da ação seja possível, o homem faz uso da linguagem: ao representar o mundo, torna presente no pensamento o que está ausente e comunica-se com o outro. O trabalho se realiza então, e sobretudo, como atividade coletiva.
Além de transformar a natureza, humanizando-a, além de proceder à “comunhão” (à união) dos homens, o trabalho transforma o próprio homem. Todo trabalho trabalha para fazer um homem ao mesmo tempo que uma coisa”, disse o filósofo personalista Mounier. Isto significa que, pelo trabalho, o homem se autoproduz: desenvolve habilidades e imaginação: aprende a conhecer as forças da natureza e a desafiá-las; conhece as próprias forças e limitações: relaciona-se com os companheiros e vive os afetos de toda relação: impõe-se uma disciplina. O homem não permanece o mesmo, pois o trabalho altera a visão que ele tem do mundo e de si mesmo.
Se num primeiro momento a natureza se apresenta aos homens como destino, o trabalho será a condição da superação dos determinismos: a transcendência é propriamente a liberdade. Por isso, a liberdade não é alguma coisa que é dada ao homem, mas o resultado da sua ação transformadora sobre o mundo, segundo seus projetos.
2. Visão histórica do trabalho
A concepção de trabalho sempre esteve predominantemente ligada a uma visão negativa. Na Bíblia, Adão e Eva vivem felizes até que o pecado provoca sua expulsão do Paraíso e a condenação ao trabalho com o “suor do seu rosto”. À Eva coube também o “trabalho” do parto.
A etimologia da palavra “trabalho“ vem do vocábulo latino tripaliare. do substantivo tripalium, aparelho de tortura formado por três paus, ao qual eram atados os condenados, e que também servia para manter presos os animais difíceis de ferrar. Daí a associação do trabalho com tortura, sofrimento, pena, labuta.
Na Antiguidade grega, todo trabalho manual é desvalorizado por ser feito por escravos, enquanto a atividade teórica, considerada a mais digna do homem. representa a essência fundamental de todo ser racional. Para Platão, por exemplo, a finalidade dos homens livres é justamente a “contemplação das idéias”.
Também na Roma escravajista o trabalho era desvalorizado. É significativo o fato de a palavra negotium indicar a negação do ócio: ao enfatizar o trabalho como “ausência de lazer”, distingue-se o ócio como prerrogativa dos homens livres.
Na Idade Média, Santo Tomás de Aquino procura reabilitar o trabalho manual, dizendo que todos os trabalhos se equivalem, mas, na verdade, a própria construção teórica de seu pensamto, calcada na visão grega, tende a valorizar a atividade contemplativa. Muitos textos medievais consideram a ars mechanica (arte mecânica) uma ars inferior.
Tanto na Antiguidade como na Idade Média, essa atitude resulta na impossibilidade de a ciência se desligar da filosofia.
Na Idade Moderna, a situação começa a se alterar: o crescente interesse pelas artes mecânicas e pelo trabalho em geral justifica-se pela ascensão dos burgueses, vindos de segmentos dos antigos servos que compravam sua liberdade e dedicavam-se ao comércio, e que portanto tinham outra concepção a respeito do trabalho.
A burguesia nascente procura novos mercados e há necessidade de estimular as navegações: no século XV os grandes empreendimentos marítimos culminam com a descoberta do novo caminho para as Índias e das terras do Novo Mundo. A preocupação de dominar o tempo e o espaço faz com que sejam aprimorados os relógios e a bússola. Com o aperfeiçoamento da tinta e do papel e a descoberta dos tipos móveis, Gutenberg inventa a imprensa.
No século XVII, Pascal inventa a primeira máquina de calcular; Torricelli constrói o barômetro; aparece o tear mecânico. Galileu, ao valorizar a técnica, inaugura o método das ciências da natureza, fazendo nascer duas novas ciências, a física e a astronomia.
A máquina exerce tal fascínio sobre a mentalidade do homem moderno que Descartes explica o comportamento dos animais como se fossem máquinas, e vale-se do mecanismo do relógio para explicar o modelo característico do universo (Deus seria o grande relojoeiro!).
Nascimento da fábricas e urbanização
Na vida social e econômica ocorrem, paralelamente ao desenvolvimento descrito, sérias transformações que determinam a passagem do feudalismo ao capitalismo. Além do aperfeiçoamento das técnicas, dá-se o processo de acumulação de capital e a ampliação dos mercados.
O capital acumulado permite a compra de matérias-primas e de máquinas, o que faz com que muitas famílias que desenvolviam o trabalho doméstico nas antigas corporações e manufaturas tenham de dispor de seus antigos instrumentos de trabalho e, para sobreviver, se vejam obrigadas a vender a força de trabalho em troca de salário.
Com o aumento da produção aparecem os primeiros barracões das futuras fábricas, onde os trabalhadores são submetidos a uma nova ordem, a da divisão do trabalho com ritmo e horários preestabelecidos. O fruto do trabalho não mais lhes pertence e a produção é vendida pelo empresário, que fica com os lucros.
Está ocorrendo o nascimento de uma nova classe: o proletariado.
No século XVIII, a mecanização no setor da indústria têxtil sofre impulso extraordinário na Inglaterra, com o aparecimento da máquina a vapor, aumentando significativamente a produção de tecidos. Outros setores se desenvolvem, como o metalúrgico: também no campo se processa a revolução agrícola.
No século XIX, o resplendor do progresso não oculta a questão social, caracterizada pelo recrudescimento da exploração do trabalho e das condições subumanas de vida: extensas jornadas de trabalho, de dezesseis a dezoito horas, sem direito a férias, sem garantia para a velhice, doença e invalidez: arregimentação de crianças e mulheres, mão-de-obra mais barata; condições insalubres de trabalho, em locais mal iluminados e sem higiene; mal pagos, os trabalhadores também viviam mal alojados e em promiscuidade.
Da constatação deste estado de coisas é que surgem no século XIX os movimentos socialistas e anarquistas, que pretendem denunciar e alterar a situação.
A sociedade pós-industrial
As alterações sociais decorrentes da implantação do sistema fabril indicam o deslocamento de importância central do setor primário (agricultura) para o setor secundário (indústria).
A partir de meados do século XX surge o que chamamos de sociedade pós-industrial, caracterizada pela ampliação dos serviços (setor terciário). Não que os outros setores tenham perdido importância, mas as atividades de todos os setores ficam dependentes do desenvolvimento de técnicas de informação e comunicação. Basta ver como o cotidiano de todos nós se acha marcado pelo consumo de serviços de publicidade, comunicação, pesquisa, empresas de comércio e finanças, saúde, educação, lazer etc.
A mudança de enfoque descentraliza a atenção antes voltada para a produção (capitalista versus operário), agora mobilizada pelo consumo e informação.
3. O que é alienação?
Hegel, filósofo alemão do século XIX, faz uma leitura otimista da função do trabalho na célebre passagem “do senhor e do escravo’’, descrita na Fenomenologia do espírito.
O filósofo se refere a dois homens que lutam entre si e um deles sai vencedor, podendo matar o vencido: este se submete, não ousando sacrificar a própria vida. A fim de ser reconhecido como senhor, o vencedor “conserva” o outro como “servo”. Depois disso, é o servo submetido que tudo faz para o senhor: mas, com o tempo, o senhor descobre que não sabe fazer mais nada, pois, entre ele e o mundo, colocou o escravo, que domina a natureza. O ser do senhor se descobre como dependente do ser do escravo e, em compensação, o escravo, aprendendo a vencer a natureza, recupera de certa forma a liberdade. O trabalho surge, então, como a expressão da liberdade reconquistada.
Marx retoma a temática hegeliana, mas critica a visão otimista do trabalho ao demonstrar como o objeto produzido pelo trabalho surge como um ser estranho ao produtor, não mais lhe pertencendo: trata-se do fenômeno da alienação.
Em Hegel também surge o conceito de alienação. Em sua perspectiva, ela corresponde ao momento em que o espírito “sai de si” e se manifesta na construção da cultura. Essa cisão provocada pelo espírito que se exterioriza na cultura (por meio do trabalho) é superada pelo trabalho da consciência. que nesse estágio superior é consciente de si. Com isso, segundo Marx, ao privilegiar a consciência, Hegel perde a materialidade do trabalho (o que se compreende dentro da linha idealista do pensamento hegeliano).
Isso não significa que Marx não considere o trabalho condição da liberdade. Ao contrário, esse é o ponto central do seu raciocínio. Para ele, o conceito supremo de toda concepçao humanista está em que o homem deve trabalhar para si, não entendendo isso como trabalho sem compromisso com os outros, pois todo trabalho é tarefa coletiva, mas no sentido de que deve trabalhar para fazer-se a si mesmo homem. O trabalho alienado o desumaniza. Vejamos portanto em que consiste a alienação no trabalho.
Conceituação de alienação
Há vários sentidos para o conceito de alienação.
Juridicamente, significa a perda do usufruto ou posse de um bem ou direito pela venda, hipoteca etc. Nas esquinas costumamos ver cartazes de marreteiros chamando a atenção dos motoristas: “Compramos seu carro, mesmo alienado”.
Referimo-nos a alguém como alienado mental dizendo, com isso, que tal pessoa é louca. Aliás, alienista é o médico de loucos.
A alienação religiosa aparece nos fenômenos de idolatria, quando um povo cria ídolos e a eles se submete.
Para Rousseau, a soberania do povo é inalienável: isto é, pertence somente ao povo, que não deve outorgá-la a nenhum representante, devendo ele próprio exercê-la. É o ideal da democracia direta.
Na vida diária, chamamos alguém de alienado quando o percebemos desinteressado de assuntos considerados importantes, tais como as questões políticas e sociais.
Em todos os sentidos, há algo em comum no uso da palavra alienação: no sentido jurídico, perde-se a posse de um bem: na loucura, o louco perde a dimensão de si na relação com o outro; na idolatria, perde-se a autonomia; na concepção de Rousseau, o povo não deve perder o poder: o homem comum alienado perde a compreensão do mundo cm que vive e torna alheio a sua consciência um segmento importante da realidade em que se acha inserido.
Etimologicamente a palavra alienação vem do latim alienare, alienus, que significa “pertence a um outro”. E outro é alius, sob determinado aspecto, alienar é tornar alheio, transferir para outrem o que é seu.
Para Marx, que analisou esse conceito básico, a alienação não é puramente teórica, pois se manifesta na vida real do homem, na maneira pela qual, a partir da divisão do trabalho, o produto do seu trabalho deixa de lhe pertencer. Todo o resto é decorrência disso. Retomando a discussão anterior, vimos que o surgimento do capitalismo determinou a intensificação da procura do lucro e confinou o operário à fábrica, retirando dele a posse do produto. Mas não é apenas o produto que deixa de lhe pertencer. Ele próprio abandona o centro de si mesmo. Não escolhe o salário - embora isso lhe apareça ficticiamente como resultado de um contrato livre -, não escolhe o horário nem o ritmo de trabalho e passa a ser comandado de fora, por forças estranhas a ele.
Ocorre então o que Marx chama de fetichismo da mercadoria e reificação do trabalhador.
(Fetichismo: nas práticas religiosas, “feitiço” ou “fetiche” significa objeto a que se atribui poder sobrenatural: em Psicologia, fetichismo é a perversão na qual a satisfação sexual depende da visão ou contato com um objeto determinado (sapatos, meias, roupas íntimas etc. O paralelo entre esses dois sentidos e o do fetichismo da mercadoria é que, nos três casos, os objetos inertes, sem vida, são “animados”, “humanizados”).
O fetichismo é o processo pelo qual a mercadoria, ser inanimado, é considerada como se tivesse vida, fazendo com que os valores de troca se tornem superiores aos valores de uso e determinem as relações entre os homens, e não vice-versa. Ou seja, a relação entre os produtores não aparece como sendo relação entre eles próprios (relação humana), mas entre os produtos do seu trabalho. Por exemplo, as relações não são entre alfaiate e carpinteiro, mas entre casaco e mesa.
A mercadoria adquire valor superior ao homem, pois privilegiam-se as relações entre coisas, que vão definir relações materiais entre pessoas. Com isso, a mercadoria assume formas abstratas (o dinheiro, o capital) que, em vez de serem intermediárias entre indivíduos, convertem-se em realidades soberanas e tirânicas.
Em conseqüência, a ‘humanização” da mercadoria leva à desumanização do homem, à sua coisificação, à reificação (do latim res. “coisa”), sendo o próprio homem transformado em mercadoria (sua força de trabalho tem um preço no mercado).
As discussões a respeito da alienação preocuparam autores marxistas como Lukács, Erich Fromm e Althusser, entre outros, e filósofos existencialistas e personalistas como Sartre, o cristão Mounier e o não-marxista Heidegger, que descreveram os modos inautênticos do existir humano.
A seguir, examinaremos a alienação na produção, no consumo e no lazer.
Alienação na produção
O taylorismo
Nos sistemas domésticos de manufatura, era comum o trabalhador conhecer todas as etapas da produção, desde o projeto até a execução. A partir da implantação do sistema fabril, no entanto, isso não é mais possível, devido à crescente complexidade resultante da divisão do trabalho.
Chamamos dicotomia concepção-execução do trabalho justamente ao processo pelo qual um pequeno grupo de pessoas concebe, cria, inventa o que vai ser produzido, inclusive a maneira como vai ser produzido, e outro grupo é obrigado à simples execução do trabalho, sempre parcelado, pois a cada um cabe parte do processo.
A divisão do trabalho foi intensificada no início do século XX, quando Henry Ford introduziu o sistema de linha de montagem na indústria automobilística (fordismo). A expressão teórica do processo de trabalho parcelado é levada a efeito, por Frederick Taylor (1856-1915), no livro Princípios de administração científica, onde estabelece os parâmetros do método científico de racionalização da produção - daí em diante conhecido como taylorismo - e que visa o aumento da produtividade com a economia de tempo, a supressão de gestos desnecessários e comportamentos supérfluos no interior do processo produtivo.
O sistema foi implantado com sucesso no início do século XX nos EUA e logo extrapolou os domínios da fábrica, atingindo outros tipos de empresa, os esportes, a medicina, a escola e até a atividade da dona de casa. Por exemplo, um ferro de passar é fabricado de acordo com os critérios de economia de tempo, de gasto de energia (de eletricidade e da dona de casa, por que não?); a localização da pia e do fogão devem favorecer a mobilidade; os produtos de limpeza devem ser eficazes num piscar de olhos.
Taylor parte do princípio de que o trabalhador é indolente, gosta de “fazer cera” e usa os movimentos de forma inadequada. Observando seus gestos, determina a simplificação deles, de tal forma que a devida colocação do corpo, dos pés e das mãos possa aumentar a produtividade. Também a divisão e o parcelamento do trabalho se mostra importante para a simplificação e maior rapidez do processo. São criados cargos de gerentes especializados em treinar operários, usando cronômetros e depois viciando-os no desempenho de suas funções. Os bons funcionários são estimulados com recompensas, os indolentes, sujeitos a punições. Taylor tentava convencer os operários de que tudo isso era para o bem deles, pois, em última análise, o aumento da produção reverteria em benefícios também para eles, gerando a sociedade da opulência.
O homem, reduzido a gestos mecânicos, tornado “esquizofrênico” pelo parcelamento das tarefas, foi retratado em Tempos modernos, filme clássico de Charles Chaplin, o popular Carlitos.
O sistema de “racionalização” do trabalho faz com que o setor de planejamento se desenvolva, tendo em vista a necessidade de aprimorar as formas de controle da execução das tarefas.
A necessidade de planejamento desenvolve intensa burocratização. Os burocratas são especialistas na administração de coisas e de homens, estabelecendo e justificando a hierarquia e a impessoalidade das normas. A burocracia e o planejamento se apresentam com a imagem de neutralidade e eficácia da organização, corno se estivessem baseados num saber objetivo, competente, desinteressado. Mas é apenas urna imagem de neutralidade que mascara um conteúdo ideológico eminentemente político: na verdade, trata-se de uma técnica social de dominação. Vejamos por quê.
Não é fácil submeter o operário a um trabalho rotineiro, irreflexivo e repetitivo no qual, enquanto homem, ele se encontra reduzido a gestos estereotipados. Se não compreendemos o sentido da nossa ação e se o produto do trabalho não é nosso, é bem difícil dedicarmo-nos com empenho a qualquer tarefa. O taylorismo substitui as formas de coação visíveis, de violência direta, pessoal, de um “feitor de escravos”, por exemplo, por formas mais sutis que tornam o operário dócil e submisso. É um sistema que impessoaliza a ordem, que não aparece mais com a face de um chefe que oprime, diluindo-a nas ordens de serviço vindas do “setor de planejamento”. Retira toda a iniciativa do operário, que cumpre ordens, modela seu corpo segundo critérios exteriores, “científicos”, e cria a possibilidade da interiorização da norma, cuja figura exemplar é a do operário-padrão.
O recurso de distribuição de prêmios, gratificações e promoções para se obter índices cada vez maiores de produção gera a “caça” aos postos mais elevados na empresa, e estimula a competição em vez da solidariedade. A fragmentação dos grupos e do próprio operário que ocorre nas fábricas facilita ao capitalista o controle absoluto do produto final.
É interessante lembrar que o taylorismo não é exclusivo do capitalismo, pois a “racionalização” da produção também foi introduzida na antiga URSS por Lênin, com a justificativa de que o sistema não era utilizado para a exploração do trabalhador, mas para sua libertação. O produto do trabalho não seria apropriado pelo capitalista, já que a propriedade privada dos meios de produção fora eliminada com a revolução de 1917. Mas, de fato, o que resultou disso não foi a empresa burocratizada, mas o próprio Estado burocrático. Não faltaram críticas de grupos anarquistas, intelectuais de esquerda em geral, acusando Lênin de ter esquecido o princípio da realização do socialismo a partir de organizações de base, ao introduzir relações hierárquicas de poder dentro do próprio processo de trabalho. A “racionalização” do processo de trabalho traz em si uma irracionalidade básica. Desaparece a valorização do sentimento, da emoção, do desejo. As pessoas que aparecem nas fichas do setor de pessoal são vistas sem amor nem ódio, de modo impessoal. O burocrata-diretor é apenas um profissional que manipula as pessoas como se fossem cifras ou coisas.
O filósofo alemão Habermas, herdeiro da tradição da Escola de Frankfurt, deteve-se na análise dos efeitos perversos do sistema de produção, opondo os conceitos de razão instrumental e razão comunicativa, referentes a dois aspectos distintos da realidade social.
A razão instrumental é predominantemente técnica, usada na organização das forças produtivas que visam atingir níveis altos de produtividade e competitividade. Mas a lógica da razão instrumental não é a mesma da razão vital, existente no mundo vivido das experiências pessoais e da comunicação entre as pessoas.
Ora, a irracionalidade no mundo moderno (e a sua patologia) decorre da sobreposição da lógica da razão instrumental em setores que deviam ser regidos pela razão comunicativa,
Não se trata de negar o valor da primeira, mas de resgatar o que é perdido em termos de humanização quando a razão técnica se sobrepõe à razão vital.
A alienação no setor de serviços
Marx viveu no período em que a exploração capitalista sobre o proletariado era muito explícita, e por isso achava que o antagonismo entre as classes chegaria ao ponto crucial em que o crescente empobrecimento do operariado levaria à tomada de consciência da dominação e à conseqüente superação dela por meio da revolução.
Mas na chamada “sociedade opulenta” dos países economicamente mais desenvolvidos (não pense em termos de Brasil!) houve a tendência oposta, com a diminuição da exploração econômica das massas tal como tinha sido conhecida no século anterior.
Com a ampliação do setor de serviços, aumenta a classe média, multiplicam-se as profissões de forma inimaginável e nos aglomerados urbanos os escritórios abrigam milhares de funcionários executivos e burocratas em geral.
Na nova organização acentuam-se as características de individualismo, que levam à atomização e dispersão dos indivíduos, o que faz aumentar o interesse pelos assuntos da vida privada (e menos pelas questões públicas e políticas), além da procura hedonista de formas de lazer e satisfação imediata (talvez justamente porque o prazer lhes é negado no trabalho alienado!).
O sofrimento da natureza
Quando tratamos da produção humana,nos referimos ao poder que o homem tem de transformar a natureza e usá-la em função de seus interesses. E desde que a Ciência possibilitou a revolução tecnológica, esse poder vem sendo ampliado enormemente.
E se até aqui demos conta apenas dos prejuízos que a técnica pode causar ao homem submetido à alienação, é preciso não esquecer que a própria natureza tem sofrido com o abuso exercido sobre ela. A exaltação indiscriminada do progresso quase nunca tem permitido respeitar a integridade da natureza, a ponto de as organizações de defesa do meio ambiente virem denunciando há tempos as ameaças à sobrevivência do planeta.
A sociedade administrada
Chegamos ao impasse que nos deixa perplexos diante da técnica apresentada de início como libertadora e que se mostra, afinal, geradora de uma ordem tecnocrática opressora.
Quando se submete passivamente aos critérios de produtividade e desempenho no mundo competitivo do mercado, o homem permite que lhe seja retirado todo prazer em sua atividade produtora, passando a ser regido por princípios “racionais” que o levam à perda de si. Mais ainda, na sociedade da total administração, segundo a expressão de Horkheimer e Adorno, os conflitos existentes foram dissimulados, não havendo oposição porque o homem perdeu sua dimensão de crítica.
Não queremos assumir a posição ingênua da crítica gratuita à técnica, mas é preciso preocupar-se com a absolutização do “espírito da técnica” (a razão instrumental, a que já nos referimos). Onde a técnica se torna o princípio motor, o homem se encontra mutilado, porque é reduzido ao anonimato, às funções que desempenha, e nunca é um fim, mas sempre meio para qualquer coisa que se acha fora dele.
Enquanto prevalecerem as funções divididas do homem que pensa e do homem que só executa, será impossível evitar a dominação, pois sempre existirá a idéia de que só alguns sabem e são competentes e portanto decidem: a maioria que nada sabe é incompetente e obedece.
Por isso, a questão fundamental hoje, é a da necessidade da reflexão moral sobre os fins a que a técnica atende, observando se ela está a serviço do homem ou da sua exploração.
Alienação no Consumo
O consumo não-alienado
O ato do consumo é um ato humano por excelência, no qual o homem atende a suas necessidades orgânicas (de subsistência), culturais (educação e aperfeiçoamento) e estéticas.
Quando nos referimos a necessidades, não se trata apenas daquelas essenciais à sobrevivência, mas também das que facilitam o crescimento humano em suas múltiplas e imprevisíveis direções e dão condições para a transcendência. Nesse sentido, as necessidades de consumo variam conforme a cultura e também dependem de cada indivíduo.
No ato de consumo participamos como pessoas inteiras, movidas pela sensibilidade, imaginação, inteligência e liberdade. Por exemplo, quando adquirimos uma roupa, diversos fatores são considerados: precisamos proteger nosso corpo; ou ocultá-lo por pudor; ou “revelá-lo” de forma erótica; usamos de imaginação na combinação das peças, mesmo quando seguimos as tendências da moda; desenvolvemos um estilo próprio de vestir; não compramos apenas uma peça, pois gostamos de variar as cores e os modelos.
Enfim, o consumo não-alienado supõe, mesmo diante de influências externas, que o indivíduo mantenha a possibilidade de escolha autônoma, não só para estabelecer suas preferências como para optar por consumir ou não.
Além disso, o consumo consciente nunca é um fim em si, mas sempre um meio para outra coisa qualquer.
O consumo alienado
Num mundo em que predomina a produção alienada, também o consumo tende a ser alienado. A produção em massa ter por corolário o consumo de massa.
A organização dicotômica do trabalho a que nos referimos - pela qual se separam a concepção e a execução do produto - reduz as possibilidades de o empregado encontrar satisfação na maior parte da sua vida, enquanto se obriga a tarefas desinteressantes. Daí a importância que assume para ele a necessidade de se dar prazer pela posse de bens. “A civiIização tecnicista não é uma civilização do trabalho, mas do consumo e do “bem estar”. O trabalho deixa, para um número crescente de indivíduos, de incluir fins que lhe são próprios e torna-se um meio de consumir, de satisfazer as ‘necessidades’ cada vez mais amplas”. (G. Friedmann, Sete estudos sobre o homem e a técnica. P.147)
Vimos que na sociedade pós-industrial a ampliação do setor de serviços desloca a ênfase da produção para o consumo de serviços. Multiplicam-se as ofertas de possibilidade de consumo. A única coisa a que não se tem escolha é não consumir!
Os centros de compras se transformam em “catedrais do consumo”, verdadeiros templos cujo apelo ao novo torna tudo descartável e rapidamente obsoleto. Vendem-se coisas, serviços, idéias. Basta ver como em tempos de eleição é “vendida” a imagem de certos políticos...
A estimulação artificial das necessidades provoca aberrações do consumo: montamos uma sala completa de som, sem gostar de música; compramos biblioteca “a metro” deixando volumes “virgens” nas estantes: adquirimos quadros famosos, sem saber apreciá-los (ou para mantê-los no cofre). A obsolescência dos objetos, rapidamente postos “fora de moda”, exerce uma tirania invisível, obrigando as pessoas a comprarem a televisão nova, o refrigerador ou o carro porque o design se tornou antiquado ou porque uma nova engenhoca se mostrou “indispensável”.
E quando bebemos Coca-Cola porque “É emoção pra valer!”, bebemos o slogan, o costume norte-americano, imitamos os jovens cheios de vida e alegria. Com o nosso paladar é que menos bebemos...
Como o consumo alienado não é um meio, mas um fim em si, torna-se um poço sem fundo, desejo nunca satisfeito, um sempre querer mais. A ânsia do consumo perde toda relação com as necessidades reais do homem, o que faz com que as pessoas gastem sempre mais do que tem. O próprio Comércio facilita tudo isso com as prestações, cartões de crédito, liquidações e ofertas de ocasião, “dia das mães” etc.
Mas há um contraponto importante no processo de estimulação artificial do consumo supérfluo - notado não só na propaganda. mas na televisão, nas novelas -, que é a existência de grande parcela da população com baixo poder aquisitivo, reduzida apenas a um desejo de consumir. O que faz com que essa massa desprotegida não se revolte.
Há mecanismos na própria sociedade que impedem a tomada de consciência: as pessoas têm a ilusão de que vivem numa sociedade de mobilidade social e que, pelo empenho no trabalho, pelo estudo, há possibilidade de mudança, ou seja, “um dia eu chego lá”... E se não chegam, “é porque não tiveram sorte ou competência”.
Por outro lado. uma série de escapismos na literatura e nas telenovelas fazem com que as pessoas realizem suas fantasias de forma imaginária, isto sem falar na esperança semanal da Loto, Sena, Mega-sena e demais loterias. Além disso, há sempre o recurso ao ersatz, ou seja, a imitação barata da roupa, da jóia, do bule da rica senhora.
O torvelinho produção-consumo em que está mergulhado o homem contemporâneo impede-o de ver com clareza a própria exploração e a perda da liberdade, de tal forma se acha reduzido na alienação ao que Marcuse chama de unidimensionalidade (ou seja, a uma só dimensão). Ao deixar de ser o centro de si mesmo, o homem perde a dimensão de contestação e crítica, sendo destruída a possibilidade de oposição no campo da política, da arte, da moral.
Por isso, nesse mundo não há lugar para a filosofia, que é, por excelência, o discurso da contestação.
Alienação no lazer
Histórico do lazer
O lazer é criação da civilização industrial, e aparece como um fenômeno de massa com características especiais que nunca existiram antes do século XX.
Antes o lazer era privilégio dos nobres que, nas caçadas, festas, bailes e jogos, intensificavam suas atividades predominantemente ociosas. Mais tarde, os burgueses enriquecidos também podiam se dar ao luxo de aproveitar o tempo livre.
Os artesãos e camponeses que viviam antes da Revolução Industrial seguiam o ritmo da natureza: trabalhavam desde o clarear do dia e paravam ao cair da noite, já que a deficiente iluminação não permitia outra escolha. Seguiam o ritmo das estações, pois a semente exige o tempo de plantio, tanto quanto a colheita deve ser feita na época certa. Havia “dias sem trabalho”, que ofereciam possibilidade de repouso, embora não muito, pois geralmente os feriados previstos eram impostos pela Igreja e havia a exigência de práticas religiosas e rituais obrigatórios. As festas religiosas ou as que marcavam o fim da colheita eram atividades coletivas e adquiriam importante sentido na vida social.
O advento da era industrial e o crescimento das cidades alteram o panorama. Com a introdução do relógio, o ritmo do trabalho deixa de ser marcado pela natureza. A mecanização, divisão e organização das tarefas exigem que o tempo de trabalho seja cronometrado, e as extensas jornadas de dezesseis a dezoito horas mal deixam tempo para a recuperação fisiológica.
Mas as reivindicações dos trabalhadores vão lentamente conseguindo alguns êxitos. A partir de 1850 é estabelecido o descanso semanal: em 1919 é votada a lei das oito horas: progressivamente a semana de trabalho é reduzida para cinco dias. Depois de 1930, outras conquistas, como descanso remunerado, férias e, concomitantemente, a organização de “colônias de férias”, fazem surgir no século XX o “homem-de-após-trabalho”. É o início de uma nova era, que tende a tomar contornos mais definidos com a intensificação da automação do trabalho. Estamos nos dirigindo a passos largos para a “civilização do lazer”...
No Brasil a legislação trabalhista demorou mais tempo e dependeu da tardia organização sindical, uma vez que também o processo de industrialização brasileiro foi posterior ao dos países mais avançados. Apenas na década de 30, no governo populista de Getúlio Vargas, os trabalhadores conquistaram a regulamentação das oito horas diárias de trabalho e outros benefícios.
A diminuição da jornada de trabalho cria o tempo liberado, que não pode ser confundido ainda com o tempo livre, pois aquele e gasto de inúmeras maneiras: no transporte - na maioria das vezes o operário mora longe do local de trabalho; com as ocupações de asseio e alimentação; com o sono; com obrigações familiares e afazeres domésticos; com obrigações sociais, políticas ou religiosas; às vezes até com um ‘bico” para ganhar mmais alguns trocados. Isso sem falar no trabalho da mulher, que sempre supõe a “dupla jornada de trabalho”.
O que é lazer?
O tempo propriamente livre, de lazer, é considerado aquele que sobra após a realização de todas as funções que exigem uma obrigatoriedade, quer sejam as de trabalho ou todas as outras que ocupam o chamado tempo liberadodo.
O que é lazer, então? Segundo Dumazedier, “o lazer é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se ou, ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora, após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais” (Dumazedier, Lazer e cultura popular, pg. 34).
Portanto, há três funções solidárias no lazer:
- visa o descanso e, portanto, libera da fadiga;
- visa o divertimento, a recreação, o entretenimento e, portanto, é uma complementação que dá equilíbrio psicológico à nossa vida, compensando o esforço que despendemos no trabalho. O lazer oferece, no bom sentido da palavra, a evasão pela mudança de lugar, de ambiente, de ritmo, quer seja em viagens, jogos ou esportes ou ainda em atividades que privilegiam a ficção, tais como cinema, teatro, romance, e que exigem o recurso a exaltação da nossa vida imaginária;
- visa a participação social mais livre, e com isso promove o nosso desenvolvimento. A procura desinteressada de amigos, de aprendizagem voluntária, estimula a sensibilidade e a razão e favorece o surgimento de condutas inovadoras.
De tudo isso, fica claro que o lazer autentico ativo, ou seja, o homem não é um ser passivo que deixa “passar o tempo” livre, mas empenha-se em algo que escolhe e lhe dá prazer e o modifica como pessoa.
É bom não reduzir o lazer criativo apenas aos programas com funções claramente didáticas. Podemos assistir ativamente a qualquer tipo de programa quando somos bons observadores, assumimos atitude seletiva, somos sensíveis aos estímulos recebidos e procuramos compreender o que vemos e apreciamos.
O lazer alienado
No mundo cio que a produção e o consumo são alienados, é difícil evitar que o lazer também não o seja. A passividade e o embrutecimento naquelas atividades repercutem no tempo livre.
Sabe-se que pessoas submetidas ao trabalho mecânico e repetitivo na linha de montagem têm o tempo livre ameaçado pela fadiga mais psíquica do que física, tornando-se incapazes de se divertir. Ou então, exatamente ao contrário, procuram compensações violentas que as recuperem do amortecimento dos sentidos.
A propaganda da bem-montada “indústria do lazer” orienta as escolhas e os modismos, manipula o gosto, determinando os programas: boliche, patinação. discotecas, danceterias, filmes da moda.
Até aqui, fizemos referência a determinado segmento social que tem acesso ao tempo de lazer. Resta lembrar que as cidades não têm infra-estrutura que garanta aos mais pobres a ocupação do seu tempo livre: lugares onde ouvir música, praças para passeios, várzeas para o joguinho de futebol, clubes populares, locais de integração social espontânea. Isso torna muito reduzida a possibilidade do lazer ativo, não-alienado, ainda mais se supusermos que o homem se encontra submetido a todas as formas de massificação pelos meios de comunicação.
Vimos que o lazer ativo se caracteriza pela participação integral do homem como ser capaz de escolha e de crítica. Dessa forma, o lazer ativo permite a reformulação da experiência. Tal não ocorre com o lazer passivo, no qual o homem não reorganiza a informação recebida ou a ação executada, de modo que elas nada lhe acrescentam de novo, ao contrário, reforçam os comportamentos mecanizados.
É bom lembrar que o caráter de atividade ou passividade nem sempre decorre do tipo de lazer em si, mas da postura do homem diante dele. Assim, duas pessoas que assistem ao mesmo filme podem ter atitude ativa ou passiva, dependendo da maneira pela qual se posicionam como seres que comparam, apreciam, julgam e decidem ou não.